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O Poder a Olho Nú

O Poder a Olho Nú


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No Terreiro do Paço é bizarra a vista que se tem. Vemos o edifício que nos envolve, outrora paço real e símbolo em diferentes épocas do Poder em Portugal (ainda hoje restam alguns ministérios), povoado de esplanadas e de análogos serviços turísticos. Antes de mais nada, tudo pelo Crescimento. A classe política há muito que aposta na “economia de serviços”, como a solução para Portugal. A indústria turística assegura os lazeres dos trabalhadores do mundo inteiro, desejando multiplicar o emprego. Embora o resultado seja: por um lado, como já o sentimos, o que cresce aqui é o desemprego, por outro, aumenta a devastação do território por via da construção de hotéis, resorts, campos de golfe, auto-estradas…
Em todas as épocas o Poder dominante sempre apresentou sinais que se podem ver a olho nú. Nos séculos de domínio religioso «um manto branco de igrejas», catedrais e capelas cobriu os quatro cantos do Mundo e foram para esses tempos os edifícios que mais impressionaram. Com o aparecimento da indústria e dos Estados-nações foram sendo construídos (plantados como eucaliptos) ao longo dos anos edifícios administrativos, escolas, fábricas nacionais, regionais, locais, vilas operárias…
Hoje, na baixa de Lisboa os pequenos comércios fecham as portas. Como antes desapareceram os sapateiros, tanoeiros, cordoeiros, ourives, ofícios que deram o nome a ruas e travessas. O desenvolvimento do progresso, obriga. E se um dia a cidade se atrasa, é preciso demolir. É imperativo que os arquitectos “criem” e que a Economia viva. Ao lado da sede do Município lisboeta, uma antiga igreja foi convertida em museu do Banco de Portugal. A fachada foi mantida, o interior alterado. Por toda a cidade uma ocupação mais subtil dos lugares opera-se através do mantimento da fachada, a única que é legalmente protegida, mesmo que todo o interior seja arrasado a fim de construir escritórios, parques de estacionamento, hotéis, apartamentos, museus….
Enquanto as necessidades reais são ignoradas, a publicidade e outras formas de pressão social impõem à população toda a espécie de utensílios. Por isso, logo que nos aproximamos da cidade somos acolhidos por uma muralha de reclames coloridos, flamantes, agressivos. Há cerca de trinta anos que se anda a construir às portas das cidades gigantescos espaços comerciais. Assim, o centro das cidades foi progressivamente esvaziado de habitantes, de comerciantes e do formigueiro social que o acompanhava. Se na «idade média», como em outras épocas, as portas fortificadas demarcavam a cidade, hoje o seu limite são as zonas comerciais-industriais. A cidade apresenta-se rodeada por um bastião periférico representando o mesmo que as antigas fortificações representavam.
O centro da cidade é assim um museu para os turistas visitarem, uma galeria de bares onde se compra o «tempo livre», onde nos empregamos no entretenimento, especialmente ao fim de semana. As pessoas desaparecem argamassadas pela massa feita de produtos e de lixos industriais, esmagadas numa avalanche de ruídos, imagens, de dirigentes políticos e de leis.

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