“Belo como uma Prisão em Chamas” ou a história de uma insurreição tão brutal como desconhecida

25 de Março de 2013
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belo_prisao_chamasEsta é a história da arraia-miúda, das suas tentativas, sucessos e insucessos de insurreição numa Londres onde o capitalismo, como hoje o vemos, começa a dar os primeiros passos, pelo ano de 1780. “Belo como uma Prisão em Chamas”, editado em 2012 pelos refratários dos livros (Antígona), conta-nos, num só jorro, uma narrativa bem curiosa, a de gente totalmente desconhecida que, sem apelidos coincidentes com os dos lordes, professores, jornalistas ou quaisquer outros artistas, faz a proeza de libertar milhares de presos e de bloquear toda a economia subsistindo durante vários dias através de pilhagens e ocupações.

O ambiente “motinesco” era, à época, tão usual como o pacifismo actual. Várias circunstâncias explicam-no, tais como a miséria, os antros de subversão, a brutalidade da indústria emergente e a sua consequente desregulação social. No entanto, o autor, Julius Van Daal, salienta um episódio em concreto: a lei do Gin Act que, em 1736, taxou a bebida mais popular com um pesado imposto. Em resposta, hordas de indigentes saíam das tabernas, com brutais bebedeiras de gin não taxado, que culminavam em incêndios e ferozes batalhas com a polícia.

Mais tarde, em 1780, quando a Inglaterra lutava com a França e perdia a guerra com uns Estados Unidos em luta pela independência, o Rei promulgou uma lei que permitia aos católicos ingressar as fileiras do exército (interditos há vários anos). Em contestação a essa lei, foram organizados protestos “cidadãos” que passavam por harmoniosas manifestações e petições ao parlamento pela esquerda burguesa anti-católica da altura. O que esses “cidadãos” não esperavam é que a turma de indigentes, deambulando pelas madrugadas, incendiando Londres em siderais bebedeiras, se juntasse, sem ser convidada, a uma dessas manifestações.

É assim que começa esta história. Segue-se o mais interessante: a turba começa por cercar o parlamento, tratando logo de seguida de encher os parlamentares, literalmente, de lama e de merda até que, noite dentro, vai libertando os prisioneiros enquanto se abastece com muito álcool pelos armazéns que consegue ocupar.

Com o passar das horas, a insurreição vai ganhando forma: “A multidão invade o campo de artilharia da capital e apodera-se do conteúdo do seu arsenal. São pilhados vários arsenais. Os enraivecidos deitaram mão a arcabuzes, espingardas, pistolas, sabres, barris de pólvora. Toda a população ao cimo da Terra faz greve. As fábricas estão fechadas, todo o comércio cessou. (…) Os pequeno-burgueses são obrigados a contribuir para o “fundo de apoio ao motim”.

Passados cinco dias e muitas conquistas, entre elas o total bloqueio da economia londrina, a gratuitidade da comida e principalmente da bebida, a fuga da alta burguesia da cidade, e a ausência total da autoridade do Estado, a ordem volta a mostrar os dentes. Em dois dias, são contabilizados cerca de um milhar de mortos, o exército e a polícia cumprem mais uma vez o seu papel histórico e voltam a dar condições ao capital para se reproduzir sem estes empecilhos.

O autor do livro, o suburbano parisiense Julius Van Daal, nosso contemporâneo, não entra no jogo da imparcialidade e posiciona a sua narração do lado da barricada dos revoltosos. Sem recorrer a fontes académicas ou da época, reporta os factos com grande vivacidade, como se lá estivesse presencialmente. Para acreditarmos na epopeia que relata, fornece-nos apenas uma pequena lista bibliográfica. De facto, o fresco apresentado é tão impressionante e extremo que nos interrogamos da sua veracidade. Ficamos, sem dúvida, com vontade de ler essa meia dúzia de livros.

Apesar de esteticamente desinteressante, a capa é em si um ponto político da editora Antígona. Colocando uma fotografia dos recentes confrontos em frente ao parlamento português, no passado 15 de Outubro, o editor opta assim por desafiar o leitor ao colocar esta ponte temporal e espacial entre as lutas. Esta opção traduzirá um anúncio do que há-de vir, um desejo, ou um apelo aos insurrectos para seguirem caminho?

O que não falta neste relato são os imensos paralelos possíveis com o actual combate à crise e ao capital. Começamos de facto a achar que já conhecíamos esta história, quando lemos um episódio decorrido há mais de 200 anos – iniciado com um protesto cidadão, no propósito de reformar pontuais insatisfações através de petições e mesas de concertação com o poder institucional, liderado por um político profissional – passar rapidamente para a insurreição onde já não é possível detectar lideres, organizações ou mesmo reivindicações. É óbvio que as gargalhadas, os berros e a desamena cavaqueira que pautam a comunicação dos revoltosos enquanto arrombam uma prisão ou pilham centenas de litros de gin, será hoje muito mais traduzível por um “queremos tudo” do que por qualquer reivindicação momentânea, ou por uma manifestação em que os organizadores se congratulam, sobretudo se acabar a horas e sem qualquer distúrbio, até porque, “amanhã, nos jornais, não vão perceber os nossos argumentos”.

Em Londres, tanto em 1780 como em 2011, ninguém perceber os argumentos terá sido, provavelmente, a grande arma de uma insurreição que tentou querer tudo.

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