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In Memoriam

In Memoriam


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Por Fernando Silva

 

 

No passado dia 12 de Dezembro faleceu José Hipólito Santos (1932-2017), que pautou a vida desde jovem na luta contra a ordem social do capitalismo. Foi sua vontade expressa ter uma morte discreta, sem notícias nos jornais, nem data de falecimento. Nasceu no Porto, filho de costureira (operária têxtil antes de ser despedida por activismo sindical) e de sargento da guarda-fiscal (republicano e anti-situacionista), e morreu em Oeiras. Nos últimos nove anos resistiu, com grande autonomia e sem agonia, à morte que se lhe anunciara. Neste período escreveu quatro livros dedicados ao que ele designou por “dever de memória”, sobre os quais darei conta neste relato resumido das suas vivências e obras.

A participação de José Hipólito Santos no “Movimento da Sé” (1959) e na “Revolta de Beja” (1962), que o levaria à prisão, foram momentos importantes na sua vida de opositor ao regime de Salazar, mas o envolvimento organizado nas actividades de oposição à ditadura começara antes e marcaria a sua trajectória futura. Ainda estudante no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, integrou, com Antonio H. de Oliveira Marques, Manuel Monteiro e outros, um grupo de apoio à candidatura de Norton de Matos às eleições presidenciais (1949). Depois da desistência de ir a votos do general republicano, dada a desigualdade de condições de participação e à ausência de fiscalização das votações, estes jovens decidiram estudar conjuntamente “situações sociopolíticas pensando que isso poderia dar ideias para o futuro democrático de Portugal”(1). Na busca desse objectivo, Hipólito acabaria por frequentar a casa de António Sérgio, “figura mítica de intelectual e lutador anti-fascista”(2), envolvendo-se em actividades que irradiavam a partir dali.

De 1949 a 1958 José Hipólito Santos foi empregado de escritório, acumulando esta actividade com a de estudante no Instituto Superior de Economia e Gestão, ambas interrompidas, em 1955, pela ida para a tropa, onde permaneceria durante ano e meio. Com mais disponibilidade de tempo, Hipólito aceita o convite que lhe fora dirigido antes por António Sérgio e entrou para a revista Seara Nova (1956). Entretanto, este convence-o a envolver-se também no movimento cooperativo, recomendando-o por carta ao Boletim Cooperativista (Boletim) e, algum tempo depois, a inscrever-se no Ateneu Cooperativo – Fraternidade Operária de Lisboa (Ateneu), dizendo-lhe “tratar-se de uma cooperativa com pessoas muito activas, com grande capacidade de reflexão e que pretendiam dar uma nova vida a um cooperativismo conservador e sem perspectivas”(3).

Hipólito iniciava assim uma ligação duradoura ao movimento cooperativo, de que virá a ser uma referência nacional e internacional. “Foi efectivamente no movimento cooperativo que me envolvi empenhadamente e isso ao longo da vida”(4), reconhece no seu livro, “Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir – Contributo para a História do Cooperativismo”, editado em 2009.

Se a recepção que encontrou no Boletim não o entusiasmou, por sentir que o olhavam com desconfiança, o ambiente que foi encontrar no Ateneu deixou-o “espantado”. Não era para menos. Viu-se no meio de mais de uma dezena de homens, no mínimo com o dobro da sua idade. “Aquele grupo em que ‘caíra’, cujos nomes comecei a conhecer e, a pouco e pouco, a saber o seu historial, era um grupo de ‘cadastrados’ que perfaziam cerca de um século de tempo acumulado de prisão!”(5). Alguns eram ex-dirigentes do Partido Comunista, casos de José de Sousa e Vasco de Carvalho. Muitos eram anarquistas, como Emídio Santana, Acácio Tomás de Aquino, Custódio Costa, Correia Pires, Carlos Ferreira, Germinal de Sousa, Carlos Cruz, José de Brito e Moisés Silva Ramos. Outros eram activistas das lutas sociais e antifascistas como Eduardo França Borges, Manuel Bastos e Roque Laia, todos ex-comunistas. E ainda outros do velho Partido Socialista Português, casos de José Augusto Machado, José Maria Assunção e Tibério Gonçalves. O Ateneu, que tinha sido relançado havia poucos meses e passara a contar com a adesão de vários anarquistas, visava estimular as cooperativas a adoptarem formas de integração e entreajuda, bem como o estudo da estratégia e dos métodos de acção para difundir as ideias cooperativas. Mas naquele espaço havia também a oportunidade para as discussões teóricas que rodeavam o marxismo e o anarquismo, e para as reflexões sobre o movimento cooperativo e a sua relação com as classes populares. A estes temas juntavam-se os relatos de episódios da vida intensa daqueles sócios do Ateneu, como deixou escrito Hipólito: “Era um grupo muito divertido, riam-se muito contando as suas histórias, mesmo quando falavam, por exemplo, da ‘frigideira’, no Tarrafal, era mais para contar como se conseguia encontrar pequenas soluções para tornar o quotidiano menos opressivo: enganar os guardas; esconder alguma coisa; ou como mantinham o moral elevado e a irreverência sempre activa. Naquele pequeno universo, falava-se abertamente contra o regime e não havia medo, pois todos tinham enfrentado o que havia de pior da ditadura. Na minha juventude e irreverência, não deixava de ter consciência de que estava a entrar em caminhos que não sabia onde me podiam levar. E, claro, não dizia nada em casa (…) mantive isso ‘secreto’ em relação a amigos, com algumas excepções, e familiares. ”(6). José Hipólito dos Santos reconhece em vários escritos a influência que este grupo de pessoas ia exercer na sua vida. E sempre que a oportunidade lhe aparecia, falava deles para obstar o esquecimento em que caíram, fruto de contingências políticas, recordando o papel activo que tiveram contra o regime ditatorial, nomeadamente na sua fase mais dura, e na luta por uma sociedade mais justa e solidária.

Naquela altura, integrava também a célula de Económicas do MUD-Juvenil e participava em várias actividades no movimento estudantil. Foi o representante dos estudantes na Comissão Central Eleitoral para as eleições de 1957. No ano seguinte concluiu a licenciatura em Economia e fez parte de três “Comissões Promotoras do Voto” (Universitária, Distrital de Lisboa e Central) constituídas em apoio à candidatura de Humberto Delgado, “que veio romper com o clima de quase ‘coexistência pacífica’ estabelecido entre o regime e a oposição”(7). A convite de António Sérgio, escreve o capítulo sobre as cooperativas de consumo da obra “O Cooperativismo: Objectivos e Modalidades”. Nesse mesmo ano participou também na Revolta da Sé, uma acção de militares e civis que visava o derrube da ditadura e seria neutralizada à nascença pela PIDE.

Vários colegas estudantes e amigos tinham-se integrado, entretanto, nas actividades do Ateneu, potenciando a renovação que iria passar também pelos órgãos sociais desta instituição. Em 1959, José Hipólito viria a ser eleito Presidente da Direcção, para o triénio seguinte, numa lista que incluía, para além de Germinal de Sousa como Vice-Presidente, quatro mulheres: Maria Armanda Ramos, Luísa Simões Raposo, Irene Assunção e Maria Luísa Gabão, uma novidade à época e indicadora do arrojo da regeneração em curso!

 

Na madrugada do primeiro dia de 1962 iriam ter lugar acontecimentos determinantes na sua vida. O fracasso do Movimento de Beja levá-lo-à primeiro à prisão e, quando libertado, um ano e meio depois, ao exílio, de onde apenas regressaria em abril de 1974. O preconceito que se instalou nos mais diversos meios da oposição à ditadura (considerando “jovens românticos possuídos pelo aventureirismo” os cerca de setenta “jovens e não jovens”, na maioria civis, que tinham posto em marcha a mais séria acção armada contra o regime desde a revolta de 18 de Janeiro) motivaria a investigação, feita através de documentos, recolha de testemunhos de muitos intervenientes e arquivos, publicada no livro “A Revolta de Beja” (8), onde Hipólito resgata o seu “dever de memória” destes factos.

Desde 1959 trabalhava no departamento estratégico de Organização e Métodos da CUF, onde tinha entrado por concurso, classificado em primeiro lugar, encarregado de reorganizar todos os serviços sociais deste importante grupo económico. Quando foi preso por envolvimento na Revolta de Beja, pouco mais de dois anos depois, o patrão da CUF, Jorge de Melo, informou a sua companheira, Mª. Luísa Gabão, de que estava disposto a pagar a renda de casa durante o período que Hipólito permanecesse na prisão. A solução proposta revela os princípios de solidariedade que orientaram a sua vida: “Aceito, se pagar a renda de casa a todos os trabalhadores da CUF que se encontram presos”. A resposta negativa foi justificada com a frase: “Não pode ser… são muitos”(9). Libertado um ano e meio depois, foi recebido em festa pelos colegas da empresa, onde se mantinha intocado o seu gabinete. Dois dias depois foi chamado a Jorge de Melo que o informou ter acabado de receber um telefonema do ministro do interior para que o despedisse. O patrão da CUF disse-lhe que não estava interessado em entrar em conflito com o governo e propôs-se pagar-lhe o mesmo salário trabalhando em casa. Hipólito respondeu que aceitaria se continuasse a pertencer ao quadro da CUF, para ser empregado dele, Jorge de Melo, não aceitava.

Dias depois passava clandestinamente a fronteira a caminho de Paris, de onde rumou para Argel. Ali permaneceria dois anos exilado, trabalhando numa cooperativa de gestão de hotéis e restaurantes. Com Veiga Pires, Ruy d’Espiney, Pulido Valente e outros, funda a JAPPA (Junta de Acção Patriótica dos Portugueses da Argélia) e representa o MAR (Movimento de Acção Revolucionária) na FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional). Todas estas organizações tinham por objectivo urgente “libertar Portugal pela acção armada do Povo”. Afectado pelo “comportamento autoritário e antidemocrático, para não dizer mesmo de cariz policial”(10) dos dirigentes da FPLN, relativamente ao resto dos portugueses exilados, e sobretudo pelas posições “indignas” assumidas pela FPLN e pela “ambiguidade” do próprio MAR, do qual era dirigente, face ao assassinato de Humberto Delgado, pela PIDE, Hipólito decide refugiar-se em Marrocos, em Outubro de 1965, onde dirigiu uma empresa pública de turismo. Neste período nasce a sua filha Elsa.

Na semana seguinte ao assalto da delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz, Maio de 1967, é convocado a Paris por Emídio Guerreiro, que conhecera em Argel e a quem reafirmara anteriormente a sua total disponibilidade se aparecesse alguma iniciativa séria de resistência activa à ditadura em Portugal. Desapontado com o “cenário” que encontrou, comunicou a Guerreiro a sua indisponibilidade. Mas nos dias que ali permaneceu cruzou-se com Barracosa, um dos participantes na acção, que também conhecia de Argel, a quem comunicou a sua intenção de se instalar em França em Setembro seguinte. Ao regressar a Paris o conflito entre Emídio Guerreiro e os “operacionais” da LUAR era já intenso e acabou por resultar em rompimento no final do ano. Em janeiro, Barracosa e Luís Benvindo, outro dos participantes no assalto da Figueira da Foz, convidam Hipólito a integrar a nova fase da organização. Até finais de 1970 (quando deixou a LUAR em desacordo com a orientação imprimida por Palma Inácio) fez parte da direcção com a responsabilidade das relações internacionais e secretariado. Entre muitas outras actividades, participou na acção frustrada de ocupação da Covilhã, em Agosto de 1968. Com a escrita do livro “Felizmente Houve a LUAR”, editado em 2011, Hipólito Santos contribuiu para o conhecimento do historial desta organização, partindo da memória do seu próprio envolvimento, confrontando-a com os testemunhos e textos produzidos por outros militantes, com o estudo de documentos existentes na Torre do Tombo (Arquivo PIDE/DGS) e em arquivos pessoais.

Vive em Paris os acontecimentos de Maio de 1968, integrando os comités de acção da Sorbonne e do Collège Coopératif, e, no ano seguinte, participa no Automne Rouge em Turim (Miafiori). Durante a sua estadia em França foi professor na Universidade de St. Dennis, desenvolvendo paralelamente uma intensa actividade, militante e profissional, no movimento cooperativo francês, colaborando também na redacção dos Cadernos de Circunstância. Em 1973, da sua nova relação com Anne-Marie Delettrez, nasce a filha Irene.

A notícia do golpe militar de 25 de Abril de 1974 foi recebida com algumas dúvidas sobre a sua natureza no círculo de exilados em que se movia em Paris. Após contactos telefónicos com Portugal e depois de ver nos jornais a imagem do pide em cuecas sendo revistado por militares na rua, decide-se a partir de automóvel para Lisboa, onde chega com outros exilados na manhã de 1 de Maio(11). À tarde, na manifestação multitudinária, reencontra ocasionalmente Emídio Santana, com quem colaborará nos meses seguintes no retomar da publicação do jornal A Batalha e a quem sucederá, incitado pelo próprio, com os argumentos de que “era preciso gente nova, ideias novas, métodos novos, uma associação nova”(12), na presidência da mais antiga cooperativa de serviços, a Associação dos Inquilinos Lisbonenses (AIL), no início do ano seguinte.

José Hipólito estivera fora do país onze anos. O Portugal de onde saíra não era o mesmo que encontrava: “não era melhor nem pior, mas era diferente completamente. Antes de me comprometer com o que quer que fosse, tinha de reconhecer o novo Portugal. Dei-me dois meses, corri o país praticamente todo… Ia a reuniões dos partidos, dos sindicatos, da comissão de moradores do meu bairro… e via como aquela malta política portuguesa estava completamente desfasada daquilo que eu tinha conhecido em França e daquilo que tinha conhecido em Portugal”(13).

Entretanto, a Comissão de Trabalhadores da CUF, recém-constituída, exigia a readmissão de todos os trabalhadores da empresa que tinham perdido o emprego pela acção repressiva da ditadura. Hipólito solicitou que se ocupassem do seu caso, recebendo a resposta: “você é da administração, não tem nada a ver com a gente, nós só nos ocupamos dos trabalhadores”(14). Do telefonema para a administração resultou a convocatória imediata para uma reunião com o patrão da CUF. Como ia a caminho da praia, vestia camisa, calções e chinelos, foi com esta vestimenta que, meia hora depois, ouviu de Jorge de Melo, no seu gabinete, a proposta de ser readmitido na administração da Tabaqueira, outra empresa do grupo. Hipólito recusa, contrapondo que queria o mesmo posto de trabalho que tinha antes de ser preso. Dado que esse posto já não existia, foi chamado o director de pessoal que aventou primeiro o banco Totta, a Lisnave depois. Sugestões recusadas. Finalmente aceita um cargo na administração da NORMA, “como o salário era muito alto, ia ganhar um porradão de massa, o mesmo que ganhavam os outros administradores, disse-lhes que só queria trabalhar a meio tempo. Dava-me perfeitamente e deixava-me meio tempo livre para fazer uma data de coisas. Ainda argumentaram que esse estatuto não existia, mas acabaram por aceitar”(15). Este contrato laboral permitir-lhe-ia desenvolver nos anos seguintes actividades associativas e políticas com grande dedicação sem qualquer recompensa monetária.

Em Janeiro de 1975, Hipólito substituiu Emídio Santana como presidente da AIL. As ideias sobre o que fazer não eram muito claras, mas a sucessão de acontecimentos na sociedade portuguesa e designadamente os decorrentes do problema da habitação obrigavam a refletir e agir com rapidez. Esta influente associação de inquilinos, que já lançara durante o verão a palavra de ordem: “Comissões de Moradores por toda a parte”, passou a apoiar publicamente as ocupações de casas com duas novas reivindicações: “Enquanto houver pessoas sem casa não pode haver casas sem gente” e “A Habitação é um direito de todos – Casas devolutas é um crime!”. Hipólito viria a ter um importante papel na reactivação da vida associativa e na restruturação da AIL, com actuações tanto junto dos poderes públicos como na rua, nos jornais, tribunais e em acções de despejo, durante o processo revolucionário e nos anos que se seguiram. Cinco anos passados, em finais de 1979, seria substituído no decurso de uma assembleia para eleger metade dos corpos gerentes da AIL, ao ser apresentada de surpresa uma lista organizada por militantes do PCP, que sairia vencedora. “E assim, a AIL voltou à defesa tradicional dos seus associados, apenas em termos jurídicos, como antes do 25 de Abril”(16). Com a sua última obra, editada em 2014, “Sem Mestres Nem Chefes, o Povo Tomou a Rua”, centrada nas lutas dos moradores no pós-25 de Abril, mas abrangendo outros aspectos do processo revolucionário, José Hipólito deu um contributo importante para o entendimento do que se viveu naquele período em Portugal.

Manifestação convocada pelas Inter-comissões de Moradores de Lisboa e do Porto em luta pelo direito à habitação e pela revogação do decreto “anti-ocupações”. À esquerda Hipólito, no centro, com barba, Alpoim Rocha e, à direita, António Guerreiro também eles revolucionários já falecidos. Lisboa, 17 Maio 1975

Talvez motivada pela notícia nos jornais do envolvimento de José Hipólito Santos num acto de resistência à polícia durante uma tentativa de despejo em Lisboa, logo depois de ter sido eleito presidente da AIL, ou pelo seu passado conhecido de membro da LUAR, do MAR, do exílio na Argélia e em Paris, ou por todos estes motivos, Isabel do Carmo, dirigente do PRP-BR, fez-lhe chegar a mensagem de que gostaria de falar com ele. Na sequência de várias conversas, com ela e com outros militantes, Hipólito adere ao partido, logo a seguir ao golpe frustrado de 11 de Março de 1975, justificando a sua decisão, entre outras, pelas seguintes razões: “já tinha ido a reuniões de vários partidos, se eu tivesse que aderir a algum partido na altura, era ao PRP que aderia. Uma das razões era ser dirigido por uma mulher, isso era uma ruptura com tudo aquilo que houvera até então… e ela tinha uma linguagem que me agradava”(17). A sua colaboração começa como professor de sociologia na UPEL(18). Dada a metodologia pouco ortodoxa das suas aulas rapidamente gera controvérsia “por não ter uma posição sistemática pró-marxista”, mas isso não impediu que fosse convidado para algumas reuniões de responsáveis do partido, acabando por ser cooptado para a direcção nacional com a função de dirigir o Norte do país, uma região problemática do ponto de vista organizativo. Acumulará este cargo, com base no Porto, com as funções de presidente da AIL e o trabalho a meio tempo na NORMA; três dias ou uma semana em Lisboa, o mesmo no Porto, e neste ritmo segue até ao golpe de 25 de Novembro.

Nesse período conturbado, que abarca todo o “verão quente”, Hipólito preparou acções de resposta a tentativas de golpe contra-revolucionário no norte do país (o mesmo fizeram todas as outras regiões e estruturas do PRP). Uma dessas acções seria a eliminação física de Pires Veloso, o “vice-rei” do Norte. No dia 25 de Novembro está em Lisboa, a direcção do partido reune na sede central na Rua Castilho, quando recebe a informação do desencadeamento do golpe contra-revolucionário. A reunião prosseguiria numa casa clandestina. Da discussão sobre a situação político-militar concluem que o PRP não podia apelar à resistência sozinho. No dia seguinte, Hipólito participa com Isabel do Carmo, em representação do PRP, numa reunião de coordenação com membros da direcção do MES (Movimento de Esquerda Socialista), realizada numa casa em Campo de Ourique, onde, depois de feita a análise da situação política, que teve presente a mobilização existente em Lisboa e no Sul dos grupos armados e a “esperança” nos fuzileiros, foi decidido avançar com a execução de Pires Veloso, considerado, então, como o chefe do golpe. Hipólito deslocou-se no mesmo dia ao Porto com essa missão. Monta a operação no dia 27 de Novembro, mas “aí viu-se que já não havia possibilidades de actuar, nessa altura já era tarde. O PRP em nenhum momento apelou à resistência, esteve sempre dependente, a ver o que faziam os outros… não podíamos entrar em acção sozinhos”(19).

No processo de reorganização do partido iniciado logo a seguir ao golpe de 25 de Novembro, Hipólito passou a responsável da organização da região de Lisboa. Após as eleições presidenciais, no verão de 1976, participa naquela que foi a primeira reunião do “Projecto de Alternativa Revolucionária”. Este acto, presidido por Otelo, reuniu os principais dirigentes e quadros do PRP com vários oficiais dos três ramos das forças armadas, no Algarve, “onde se estabeleceu a criação de um exército popular revolucionário (…) aquela reunião foi tão importante e tão secreta que cada um fez um juramento de respeito pelo segredo e que aceitava a condenação à morte no caso de traição”(20). No ano seguinte abandona as funções na região de Lisboa, continuando na direcção do PRP como responsável do sector do Poder Popular. Acusações de reformismo, motivadas pelo desacordo com a orientação política, e um processo de intriga movido contra si, levaram José Hipólito, no início de 1978, a dirigir uma carta(21) à direcção onde se demitia das suas funções, mantendo a condição de militante. Depois das prisões de dirigentes e militantes do PRP, verificadas em Junho, numa altura em que apenas mantinha contactos esporádicos com alguns membros do partido, recebe o alerta de que fora referido o seu nome em declarações de Dinis Lucas e José Plácido, dois arrependidos no processo. À cautela, parte para França, onde lecciona Sociologia da Revolução Portuguesa na Universidade de Vincennes. Meses depois é convidado a deslocar-se ao País Basco para uma reunião com dirigentes do PRP que romperam com Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Em San Sebastian, Francisco Marques e José Ricardo convidam-no a participar na nova direcção do reformulado “Projecto de Alternativa Revolucionária”, agora designado “Projecto Global”, que viria a ter expressão pública sob as siglas “FP-25 de Abril”. Após dois dias de informação e discussão, recusa o convite. Nos anos seguintes, alguns membros das FP-25 contaram com a sua solidariedade e apoio sempre que lhe bateram à porta.

A inexistência de acusações no âmbito dos processos judiciais do “caso PRP” levou-o a regressar a Portugal no final de 1979. No ano seguinte, funda em Lisboa a SEIES, uma cooperativa de serviços e solidariedade social. Entre 1981 e 1988 foi perito das Nações Unidas – FAO, dirigindo projectos de desenvolvimento, em Moçambique, Nicarágua e Guiné Bissau. De 1989 a 2005, trabalhou essencialmente na SEIES, com intervenções diversas nas Nações Unidas, em França, Itália, São Tomé e Princípe e Brasil. Foi membro de uma equipa internacional de peritos “críticos radicais do tipo de desenvolvimento dominante e dos métodos de trabalho utilizados por toda a parte, fossem de cariz capitalista ou socialista”, participando em vários congressos mundiais. Em 1999, colabora na fundação da ATTAC – Plataforma Portuguesa; em 2003, no Fórum Social de Portugal e em 2004 no F. S. Europeu, em Paris. Neste ano publica o livro A Mulher e o Desenvolvimento, onde sistematiza o essencial das suas críticas contra os modelos e metodologias de desenvolvimento, editado pela SEIES. Esta obra seria publicada em França, em 2013, numa edição refundida com reflexões e críticas actualizadas, com o título Les femmes au coeur du développement, quando foi convidado para fazer a lição de abertura da Faculté Libre d’Études Politiques et en Économie Solidaire. Em 2012, é apresentado como investigador do Instituto de História Contemporânea. De 2005 a 2013 integrou a associação cívica Não Apaguem a Memória.

Conheci o Hipólito em 1975, nas reuniões de responsáveis do PRP, onde defendia de forma frontal as suas posições muitas vezes dissonantes. Ao longo destes anos estivemos largos períodos sem contacto, mas reconfortava-me constatar nos reencontros a sua coerência e constância de princípios. Fazem falta exemplos de vida assim.

Nas obras referidas ao longo do texto, o leitor encontrará o testemunho do próprio José Hipólito dos Santos das vivências, factos e situações aqui relatadas (com excepção das referentes à sua passagem pelo PRP e outras de cariz episódico, recolhidas por mim numa entrevista filmada, para memória futura, nos dias 11 e 12 de Maio do ano passado). Uma versão reduzida deste artigo foi publicada na edição #19 do Jornal MAPA.

 

Notas:

(1), (2), (3), (4), (5), (6) e (16) – Maneiras Cooperativas de agir e pensar, José Hipólito Santos; páginas 16, 17, 19, 18, 21, 23 e 208 respectivamente; Edições Universitárias Lusófonas, Lisboa, 2009

(7), (10) – Felizmente Houve a LUAR, José Hipólito Santos; páginas 34 e 25 respectivamente; Âncora Editora, Lisboa, 2011

(8) – A Revolta de Beja, José Hipólito Santos; Âncora Editora, Lisboa, 2012

(9), (13), (14), (15), (17), (19) e (20) – Entrevista recolhida pelo autor em 11 e 12 de Maio de 2017, centrada no período de militância no PRP, mas que inevitavelmente abordou outros momentos e situações da sua vida.

(11) – Deslocando-se em dois automóveis, passam a fronteira portuguesa nessa noite, uns com passaportes verdadeiros e outros com falsos: Hipólito Santos, Manuel Vilaverde Cabral, Eduardo Medeiros e Carlos Bruno, num dos carros; e no outro, Camilo Mortágua, Luís Benvindo e as companheiras de quem não recorda os nomes. Entrevista ao autor em 11 de Maio de 2017.

(12) – Sem Mestres Nem Chefes, José Hipólito Santos, página 149; Letra Livre, Lisboa, 2014.

(18) – Universidade Proletária Ernesto e Luís, a escola de quadros do PRP-BR.

(21) – Esta carta e outros documentos relacionados com as vivências referidas neste artigo encontram-se no seu espólio depositado no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. goo.gl/JqUGLo


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