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Um Grande Comício sem Palavras

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Ao mesmo tempo que a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial se tornava uma realidade e, por todo o lado, os anti-fascistas vislumbravam uma luz ao fundo do túnel, António Ferro transformava o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), criado em 1933, em Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), para dar força à sua «política do espírito». Uma política baseada na premissa de que um povo sem cultura se transforma num povo inútil e mal-humorado e de que essa cultura deve glorificar o regime e o seu líder, integrando as tendências modernistas através do patriotismo e promovendo uma irreverência dócil, inócua… reverente.

A luz ao fundo do túnel foi também antevista pelos anti-fascistas portugueses que chegaram a pensar que a derrota do bloco nazi traria condições mais favoráveis para a queda de Salazar. Uma esperança que se alimentou também da dissolução da Assembleia Nacional, a 7 de Outubro, e a marcação de eleições para o mês seguinte. Outubro via nascer o Movimento de Unidade Democrática (MUD), que agrupava várias e provavelmente inconciliáveis famílias políticas contra o regime e que foi impedido de participar nas eleições de Novembro. Dentro do MUD nascia também a CEJAD (Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos) que ganharia as eleições para os corpos gerentes da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) em Maio de 1946.

Ganhas as eleições, iniciava-se um novo ciclo. Ainda em 1946, lançou-se a Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), aberta a todos os artistas que nunca tivessem exposto no SNI ou que se comprometessem a nunca mais o fazer. Mas a novidade não era apenas essa. Ao contrário do habitual na SNBA, desta vez não havia júris ou medalhas e eram os próprios artistas que se auto-organizavam, se auto-financiavam e, enquanto organizadores, montavam a exposição. A EGAP foi um sucesso. Tanto em termos de público como de reacção da crítica.

Tão grande foi o sucesso que se decidiu fazer uma segunda com o sonho de transformar a EGAP num acontecimento anual. Com abertura também à noite para que as classes operárias a pudessem visitar. A ideia base de união de artistas por questões políticas e não meramente estéticas era a mesma. E a atitude provocatória em relação ao regime era ampliada pela homenagem que os organizadores decidiram fazer a Abel Salazar, um fervoroso anti-fascista expulso do ensino em 1935.

A 9 de Maio de 1947, o Diário da Manhã, jornal muito próximo de Salazar, alertava para o carácter demasiado esquerdista da segunda EGAP. E a 13 de Maio, pela hora de almoço, o Ministro do Interior, Cancela de Abreu, acompanhado por uma brigada da PIDE, retirou das paredes 12 obras de 11 artistas. A visita censória não demoveu os organizadores de manterem a exposição aberta e os quadros acabaram por ser devolvidos aos seus proprietários, por entre histórias rocambolescas que não resultaram em mais problemas. Em 1948, a PIDE, apesar de não ter retirado qualquer obra, visitou a EGAP antes da abertura, instituindo assim a censura prévia como norma.

70 anos depois da segunda EGAP, a exposição patente na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, Um grande comício sem palavras, que inaugurou com visita guiada no passado dia 30 de Setembro, conta-nos este episódio de fascismo e resistência em pormenor, através de diversos painéis de enquadramento histórico e de um livreto. Uma exposição onde, para além de várias outras obras, é possível ver 6 dos 12 quadros apreendidos pela PIDE: O menino da bandeira branca, de Avelino Cunhal, Ordem, de José Viana Dionísio, Guerra, de Lima de Freitas, s/ título, de Arnaldo Louro de Almeida, Asilo, de Manuel Filipe e Pintura, de José Chaves (Mário Dionísio).

Um pedaço de história daqueles cuja memória não se pode apagar, principalmente em momentos em que a retórica de extrema-direita pretende voltar a conquistar adeptos.

Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
Rua da Achada, 11 – Lisboa
http://centromariodionisio.org

Exposição patente até 16 de Abril de 2018

Horário: Segundas, Quintas e Sextas das 15h às 20h
Sábados e Domingos das 11h às 20h

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Teófilo Fagundes

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