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Now Reading: Sejamos ingovernáveis (tradução do texto saído da coordenação nacional contra as eleições francesas)

Sejamos ingovernáveis (tradução do texto saído da coordenação nacional contra as eleições francesas)

Sejamos ingovernáveis (tradução do texto saído da coordenação nacional contra as eleições francesas)


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enviado ao Jornal MAPA a 14 Fevereiro

Em jeito de conclusão do fim-de-semana de encontros e organização à volta das eleições presidenciais [28-29 de Janeiro], o seguinte texto foi lido e proposto à assembleia. O seu objetivo era o de resumir de uma certa maneira as diferentes discussões e posições mantidas, relembrando também as datas que foram evocadas.

Nenhuma das formações políticas participantes na corrida eleitoral pode incarnar a força múltipla que foi reconhecida na frente das manifestações e outras formas de extravasamento da luta da última Primavera, assim como os milhares de indivíduos que não cessam de existir num desenrasque cotidiano.

Nós somos aqueles e aquelas, todxs aqueles e aquelas, que não suportamos mais ser cúmplices das políticas de guerra exterior e interior levadas a cabo pelos poderes ocidentais. Queremos hoje tornar impossível a quem quer que seja de pretender levar a cabo a guerra, separar as populações, dominar e explorar sociedades inteiras em nome da luta anti-terrorista, em nome da nossa segurança. Assim, posicionamo-nos no despertar do conjunto de revoltas e levantamentos que fissuraram a ordem do mundo desde 2011, das primaveras árabes às ocupações de sítios e territórios como a ZAD ou o Val de Suza.

Na França, as lutas dos últimos anos criaram a possibilidade de zonas fora-da-lei retomadas das mãos do Estado e da valorização capitalista onde outras maneiras de viver e organizar-se experimentam-se em pleno dia e a escalas cada vez mais importantes. Estamos convencidxs de que andar adiante depois das revoltas da Primavera e do Verão começa por reforçar e multiplicar estas zonas fora-de-controlo como tantos outros meios de reforçar a nossa ingovernabilidade. Aparte destas zonas agora visíveis, um conjunto de gestos foram nestes últimos tempos multiplicados: os múltiplos gestos de solidariedade juntamente aos e às migrantes, as cantinas populares, os grupos de trabalho que em todo o lado procuram dar seguimento ao espírito do movimento, as rádios locais, os lugares ocupados, os colectivos de defesa, os comités contra o estado de emergência, contra as violências policiais, contra as opressões…

Estamos determinadxs em fazer consistir todos estes gestos dispersos num movimento a nível nacional. Um movimento que remete os prazos eleitorais aquilo que eles são: uma manobra de diversão. A janela do prazo das presidenciais é paradoxalmente a ocasião de um aumento em potência. Não apelamos simplesmente a abster-se de votar. Queremos manifestar publicamente a realidade de uma outra maneira de existir [politicamente]* que não será desarmada na noite da segunda volta eleitoral.

Fazemos apelo à diversidade das componentes que se reconhecem nestas constatações mínimas a juntar-se durante uma série de datas nacionais daqui às eleições presidenciais e a multiplicar desde hoje as iniciativas descentralizadas. Que o conjunto dos lugares e colectivos que querem ver surgir um tal movimento manifestem-se publicamente como tantas bases de apoio materiais [e políticas]*.

Datas
– 18 fevereiro manifestação em apoio à ocupação da floresta de Lejuc [luta contra o aterro nuclear de Bure];
– Semana de resistência em Nantes do 20 ao 26 de fevereiro e fim-de-semana de acção contra o Frente Nacional [partido nacionalista à frente nas sondagens];
– 28 fevereiro carnaval em Montpellier;
– 19 março em Paris, manifestação pela justiça e a dignidade, iniciativa das famílias das víctimas da polícia;
– No primeiro de abril, na noite da primeira volta eleitoral e no primeiro de maio, apelo a organizar em todo o lado iniciativas locais contra as eleições.

Convidamos-vos a comunicar-nos por mail (generation.ingouvernable[at]riseup.net) o conjunto das datas e sítios que se inscrevem na iniciativa apresentada pelo texto. Retransmitiremos as informações e uma cartografia será em breve disponível num site web.
________________________________________________________________
*NDT.: Considero que a noção de “política” possa excluir certxs compas e sobre-beneficiar uns tantxs outrxs.

Contextualização

A tradução deste texto foi feita não só com o propósito de inspirar ideias para futuras eleições, tanto em portugal (num dia que as nuvens voltem ao céu do paraíso da paz social), como na frança (durante o conflito social de que padece neste momento), ou seja aí donde estivermos, como também para alimentar a difusão desta iniciativa em concreto através de uma das comunidades migrantes mais pacificadas, (voluntariamente) escravizadas e numerosas da frança (à volta de 2 milhões e meio, só de primeira e segunda geração). O objectivo imediato é, tanto aqui como lá, alimentar uma intervenção revolucionária tanto por parte dxs migrantes tugas como da hipotética comunidade não integrada que chamamos a abster-se de votar, e não só.

Enquanto o turismo e xs escravxs retornadxs trazem cada vez mais potenciais eleitorxs do estado francês à westcoast ibérica, uma intervenção o mais impertinente possível é-nos mais que nunca pertinente.
Quatro gerações de escravxs não podem sair grátis. A ideia não é a de consciencializar,
iluminar, as massas exploradas, a ideia é de intervir começando a criar o cenário de que até x historicamente mais absorvidx pelo trabalho mais degradante possa começar a tomar parte na luta contra o a sua condição conformada, contra o seu trabalho, o trabalho em geral e, por fim, esta sociedade, quando assim o desejar.

Criar precedentes para o fim de uma voluntária condição contra-revolucionária é necessário em todo o lado.
Ou senão deixemos o Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e xs aliadxs da esquerda institucional continuarem a instalar as condições de uma miséria permanentemente aceitável.


“- Qual é a árvore que dá portugueses?
– O andaime.”

– O que é que faz uma portuguesa na universidade?
– A limpeza.”

– Como se determina o futuro emprego de um bébé português?
– Lança-o contra um muro, se ficar colado será estucador, se cai será telhador.”

Provérbios algo cómicos sobre a condição dx trabalhador/a português/a na sociedade capitalista francesa.
___________________________________

“O trabalho co caralho, já ‘tava farto desta merda ! Pena é a puta da perna tar empenada pró resto da vida, ò menos o seguro pagam-ma, mas se soubesse… um par de lambadas no patrão caralho! Isséquiera!

Guilherme Daborda (nome fictício), ex-maçon no fundo de desemprego desde acidente de trabalho,
agitador revolucionário no tasco a tempo inteiro a partir da quarta super-bock.

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