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Rede Cooperar - uma iniciativa de produtores e consumidores

Rede Cooperar – uma iniciativa de produtores e consumidores


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reco_destaqueNas franjas da planície alentejana com as serras do sudoeste litoral, surgiu há um ano a Rede Cooperar (ReCo). Unidos pela agro-ecologia e por uma visão abrangente do território, com vista a criar uma comunidade de apoio mútuo entre produtores e consumidores.  

 

Nasce a ReCo

A sua formação deu-se na Aldeia das Amoreiras, onde em 2007 o GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental) se instalara com o propósito de dar corpo a alternativas sustentáveis e criativas para o desenvolvimento rural. Contrariando o abandono do campo, pretendia estabelecer a ponte entre as comunidades locais e um fluxo de citadinos animados por um “regresso à terra”.

Em torno da Aldeia das Amoreiras um outro contexto contribuía, sob idênticos pressupostos, para o nascimento da ReCo. Na zona – essencialmente entre Odemira e Ourique –, desde a década de 90 do século passado até aos nossos dias, têm vindo a estabelecer-se diversas “comunidades alternativas”, de projecção mais conhecida como a Tamera, a outra mão-cheia de projectos de menor dimensão. A estes juntara-se – tendo como fio condutor a agro-ecologia e a permacultura – um crescente número de quintas, projectos familiares ou individuais. Em todo este universo crescia a vontade de criar circuitos e relações de proximidade e entreajuda.

Surge assim, em Dezembro de 2013, na Aldeia das Amoreiras, um encontro para pensar uma cooperativa informal de produtores/consumidores. Ao longo de um ano, a ideia foi ganhando forma em encontros, à volta de pequenos mercados, que acabam por desenhar uma geografia não encerrada da ReCo: passando pela Aldeia das Amoreiras, Alvalade do Sado, Tamera (Relíquias), São Luís, Vale do Vento, Ribeira do Salto, Messejana ou Castro Verde (e a que se juntam produtores de Ferreira do Alentejo e Lagos). A maior parte dos encontros é promovido directamente pelo grupo em formação, o qual nos últimos meses deste ano promoveu apresentações do projecto em outras tantas iniciativas de Beja a Lisboa.

A ReCo apresenta-se, numa “definição possível (mas não definitiva)”, como “uma rede de confiança que vai nascendo entre várias pessoas, colectivos e associações, que abrange desde a produção alimentar até à forma de organização em sociedade, tomadas de decisão e resolução de conflitos, passando pela habitação, educação, saúde e cultura”. Os objectivos assim anunciados traduzem uma ambiciosa meta a atingir, formulada de modo propositadamente lato para incluir uma maior diversidade de intervenientes. Hoje haveria que enquadrar tamanhos objectivos, na verdade, a um processo em construção cujo desenlace não é ainda certo. O próprio princípio informal que está na sua base não permite que possamos descrever a ReCo à luz de modelos pré-definidos, como acontece no mesmo território com as associações de desenvolvimento local ou projectos de desenvolvimento rural e comunitário, que floresceram nos últimos anos a troco da manutenção de verdadeiros aparelhos de técnicos de “desenvolvimento local”. O inverter (informal e directo) precisamente dessa mediação (formal e representativa) marca a diferença, naquilo que aparenta à primeira vista objectivos similares.

Rita, do Monte Mimo – projecto familiar de agricultura ecológica e permacultura em Alvalade do Sado –, olha para este ano que passou e assinala “um grupo de pessoas bem diverso e que no tempo também se transforma e regenera”. O que se foi atingindo “embora de forma atabalhoada por vezes e quase de fugida” ao longo dos vários encontros permitiu que a iniciativa não se esfumasse. Marcos, que chegou à Aldeia das Amoreiras há alguns anos como “activista” do GAIA, resume como “todo este processo é em si mesmo instituinte, ou seja, o próprio processo cria as condições necessárias ao seu desenvolvimento. À medida que as pessoas se vão organizando e criando aquilo que consideram necessário criar para terem uma boa vida enquanto indivíduos e enquanto colectivo, vão alargando a gama de possibilidades. Ao longo do processo desenvolvem as suas capacidades organizativas, dialécticas, empáticas, etc”.

 

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Produtores e Consumidores

O cabaz natalício Al-Cabaz contém uma proposta seleccionada de alguns produtores da ReCo, parte do “resultado daquilo que as pessoas que procuram viver no campo e do campo conseguem produzir”: as chouriças veggie, a tomatada e o tomate seco ao sol, grão-de-bico, e aboborinhas recheiam o cabaz, junto com o azeite biológico, os orégãos, mel, cactos e o vinho tinto maduro, num saco de produção própria (acompanhado de uma fanzine ilustrada). O escoamento assim concertado destes e de outros produtos (em mercados ou por contacto) espelha como o foco de acção da ReCo recai essencialmente sobre a produção, transformação e distribuição alimentares, abarcando desde produções familiares a produtos já registados no circuito do mercado “bio”. Alargado a outras produções artesanais, a preocupação é estabelecer uma rede de apoio e entreajuda. “Unindo e fortificando pequenos produtores ecológicos e consumidores”, citando Sara Serrão (a ilustradora – aproveite-se para assinalar – do presente artigo), como meta para 2015, ao mesmo tempo divulgando as alternativas ao modelo agro-industrial que vai tomando conta do território.

No processo de criar uma plataforma de cooperação entre pessoas simultaneamente produtoras e consumidoras de bens e serviços, cedo a ReCo constatou a limitação da base de dados de ofertas e procuras estabelecida internamente. A necessidade de fortalecer a comunicação com a população local/rural, acentuando a boa vizinhança e a partilha de saberes, surge em conjunto com a criação de grupos de consumo. Esta última faceta foi aparentemente perspectivada pela ReCo mais para uma população citadina, em relação à qual, e a par do escoamento de produtos, foi apontada a contribuição na partilha de saberes e na discussão e trabalho crítico.

A relação Campo/Cidade surge por esse motivo ao lado da relação Produtores/Consumidores. Uma questão partilhada pela ReCo no festival “Em Pratos Limpos”, organizado pela Assembleia pela Soberania Alimentar e pela Campanha pelas Sementes Livres, em Outubro em Lisboa. Aí, de alguma forma, tornava-se evidente que os passos seguintes da ReCo se dariam também no sentido de interagir com outras iniciativas similares e sobretudo com cooperativas de consumo, como pode ser o caso da Cooperativa de Consumo Bela Rama e a Cooperativa Boa na zona de Lisboa, entre outras. Esses movimentos traduzem, no final de contas, uma preocupação crescente com a chamada “soberania alimentar”, como espelha por um lado o programa da ONG portuguesa CIDAC, que da bandeira do “comércio justo” se lançou agora no debate “do campo para o prato, o direito à alimentação e à Soberania Alimentar”, ou, por outro lado, o levar à prática do Projecto 270, da iniciativa de Agricultura de Suporte Comunitário na zona do Pinhal Novo, entre outros exemplos possíveis.

Em todo este debate e tendências actuais parecem ser generalizadas as questões que a ReCo coloca a si mesma: quais os papéis e os formatos desta relação Campo/Cidade e Produtores/Consumidores? Como expressar o significado, muitas vezes ambíguo, a atribuir à Soberania Alimentar? Talvez por isso, como referiu Rita no balanço de uma conversa tida em Novembro no espaço RDA (Lisboa), haja desde logo a necessidade de encontrar viabilidade económica na “venda de produtos sem intermediários, com base numa relação de proximidade/confiança a criar-se pelo trabalho em conjunto”. Uma procura de autonomia, sem perder de vista como “criar alternativas de mercado”. Recordando a importância do “olhar crítico de quem não está a recriar o modelo capitalista vigente mas sim alternativas para que a lógica de crescimento exponencial e do lucro sejam desmanteladas e se trabalhe na lógica da solidariedade social e da harmonia da vida neste planeta!” Daí que considere haver na ReCo alguns temas a trabalhar: a certificação participada (à margem das certificações institucionais); a moeda social; o criar novas oportunidades para as trocas (já realizadas nos mercados); ou os critérios de produção e consumo da rede.

 

Por uma comunidade de apoio mútuo

As questões ultrapassam daqui em diante a mera relação produção/consumo, numa discussão e posicionamento crítico que não parte de uma qualquer afinidade ideológica no seio da ReCo, e que carece de desenvolvimento. Os princípios da Rede estão ainda em formulação, o que não significa que não haja uma base comum de valores, tendo como “motivação a entreajuda e o apoio mútuo”. A dinâmica pretendida, expressa no último encontro da ReCo no Monte Mimo, caracterizar-se-ia “por ter clareza, por ser de baixo impacto ambiental, por partilhar os excedentes, por partilhar a mobilidade, por partilhar informação, por participar em reuniões eficientes e claras, por ter beleza, arte e poesia, por ser belo no modo de reunir e decidir, por reconhecer os ritmos orgânicos e daí ser flexível às necessidades do momento.”

Nestes termos é definida a visão plural da ReCo, uma visão holística, a visão de “uma comunidade de apoio mútuo” e de um projecto a “ser concretizado a longo prazo, e que é mutável a curto e médio prazo”. Foi por isso adoptada como “grelha de leitura e forma de estruturação” a flor da permacultura. As ramificações da sua ética e princípios abrangem várias áreas de actuação, desde a agricultura aos bancos de sementes; do espaço construído às ferramentas e tecnologias, sobretudo as que possibilitem transformar a produção e garantir alternativas energéticas; das artes às questões de educação alternativa; da saúde ao bem-estar espiritual, etc.

E se nem todos na ReCo se expressam na matriz e linguagem da permacultura, a sua expressão abrangente vai de encontro ao desejo de “promover a proximidade e a confiança característica entre vizinhos”, fazendo evoluir o projecto “a partir do pequeno, criando núcleos de harmonia”. Nesse âmbito, a ReCo anotou nos seus encontros “que para uma engrenagem funcionar é necessário ser oleada”, pelo que propõe “o óleo confiança com origem em encontros como ajudadas e círculos de partilha”. E é sob essa aproximação e funcionamento que considera “uma prioridade definir um processo de tomada de decisão: que seja ao mesmo tempo eficiente, claro e inclusivo.” Processo esse, mantido por encontros regulares, que requer uma coordenação comprometida e responsável (interna e externa), levando em consideração as necessidades de todas as pessoas, mas que – como refere Rita – “acontece, tanto mais horizontalmente e tanto mais em comum com as nossas necessidades/perspectivas pessoais quanto mais participado for”. Esse é talvez o desafio maior que se coloca à solidificação da ReCo, não dissociada da opção de enquadrar ou não legalmente a mesma, assim como os moldes cooperativistas a desenvolver no seu futuro.

Já a conversa ocorrida em Novembro no RDA, acentuou para Rita a certeza de que nesses “coletivos da cidade, assim como em comunidades do campo, existe a vontade de trabalhar modelos políticos, que não sejam o da democracia representativa, mas sim de participação/acção. Podendo esta proximidade cidade-campo favorecer o debate e o trabalho para encontrar e replicar o que já existe feito, por exemplo, nesta área da democracia participativa/activa.”

Em territórios como o Alentejo, temos assim a presença de uma “ruralidade” vinda das cidades que se cruza com uma imigração proveniente do Norte da Europa, em boa medida igualmente ávida e capacitada pelas propostas alternativas aos modelos de desenvolvimento e crescimento capitalista. Apesar de ter sido esse o cenário que deu azo ao surgimento da ReCo, o salto qualitativo para considerar possível a emergência das mencionadas possibilidades de uma “democracia participativa” parece esbater-se ainda nas dificuldade ou incapacidades de esses novos actores no território se integrarem na memória e na paisagem social, junto dos velhos actores do território e seus descendentes. Mas os gestos simples que recuperam as hortas, podam as árvores, cuidam das águas e das plantas que nos curam, erguem a terra das paredes e iluminam-nas com a cal branca, e celebram a natureza entre o riso de crianças… Esses gestos podem afinal reatar os laços com o território de ontem e de hoje e capacitar projectos como a Rede Cooperar, uma rede de produtores/consumidores, a trilhar o caminho da almejada harmonia e solidariedade social.

Filipe Nunes

Rede Cooperar: reco@riseup.net / http://redecooperar.blogspot.pt/

 

Artigo publicado na edição impressa (nº8, Dezembro de 2014)

 

 


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