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Cinema com terra

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cinema_terra_interiorA ideia de um festival de cinema sobre a agricultura e o mundo rural no nosso tempo surgiu-me perante o número e a qualidade de filmes que têm sido realizados sobre este assunto, em particular nos últimos dez ou quinze anos. São sintomáticos os casos de cineastas consagrados como Coline Serreau, Lech Kowalski ou José Vieira, três dos autores apresentados no Cinema com terra, que a certa altura (aqui, a partir de 2010) começam a interessar-se, empenhadamente, por algo que não fazia parte do seu universo cinematográfico. Ou seja, as convulsões que estão a ocorrer no mundo rural, nos cinco continentes, desde os anos 80, começaram a ter expressão, de forma mais manifesta, também no cinema documental. A penetração cada vez mais alargada e intensa do capitalismo na agricultura e o aumento da guerra social e biológica que disso decorre têm vindo a suscitar reacções críticas e de resistência um pouco por todo o mundo. Os organismos geneticamente modificados, os chamados biocombustíveis e o açambarcamento de terras são três das pontas de lança dessa incessante conquista de tudo quanto constitua território, na fuga para a frente que este sistema político-económico empreende no seu desenvolvimento imparável e já paroxístico.

Este primeiro ciclo (ciclo porque não é ainda um festival) foi apresentado em Idanha-a-Nova, nos dias 7, 8 e 9 de Novembro, no contexto do levantamento das variedades hortícolas e frutícolas que a associação Colher Para Semear (CPS) empreendeu neste concelho, a partir de Março, com o apoio da Câmara Municipal desta vila raiana. Tive a sorte de aderir à ideia o Gonçalo Mota, cineasta e divulgador itinerante de cinema, na altura na região de Vimioso, bem como, obviamente, a direcção da CPS.

Como acontece amiúde com as coisas que começam, este primeiro ciclo não teve a afluência que merecia ter tido, mas revelou o grande interesse causado por estes filmes junto das pessoas que tiveram oportunidade de os ver, bem como a necessidade de debate sobre as questões que levantam. A ideia, de resto, é mesmo essa: que cada filme constitua um instrumento capaz de despoletar questões de fundo que precisam de ser debatidas na praça pública.

Com efeito, o despovoamento das aldeias e do mundo rural não é um dado neutro e impessoal a registar friamente nas estatísticas, como uma espécie de conclusão inevitável do progresso. No âmago deste fenómeno late uma guerra social que vem de longe e cujos contornos convém identificar, não como arqueologia, mas como algo cujas contradições continuam presentes. O sensível documentário de José Vieira, O Pão que o Diabo Amassou (França/Portugal, 2012), revela pistas interessantes nesse sentido quando levanta o véu sobre o trabalho assalariado na indústria química (CUF, Barreiro) e nos latifúndios alentejanos em contraponto com as actividades agrícolas aldeãs de minifúndio. No centro da problemática mundo rural/mundo urbano não está a priori a actividade agrícola, em si mesma, como uma espécie de maldição, está a questão da propriedade e do poder que desta escorre; está a questão do chamado desenvolvimento e do imaginário (antes de mais estatal) financeiro e tecno-industrial a ele adstrito. Quem decide o que é desenvolvimento? E porque se aceita este termo como uma fórmula mágica?

O objectivo deste primeiro ciclo consistiu em apresentar alguns dos aspectos relevantes do que está a acontecer universalmente no mundo rural e na agricultura. Para isso foram seleccionados sete filmes muito diversos: abordagens intimistas, extensos inquéritos, estudos de casos. Dióspiros Vermelhos, o filme menos recente desta mostra (2001), do japonês Shinsuke Ogawa (finalizado por Peng Xiaolian), mostra a transformação de um modo de vida secular que se extingue perante as forças da modernização; Abelhas e Homens (2012), do suíço-alemão Markus Imhoof, procura compreender as causas do dramático desaparecimento das abelhas no mundo inteiro; Soluções Locais para uma Desordem Global (2010), de Coline Serreau, expõe com bastante espaço diversos modos de agroecologia que estão a ser realizados no terreno em diversas partes do mundo, identificando esta resistência como uma parte essencial da luta contra o capitalismo; Pierre Rabhi, em Nome da Terra (2013), de Marie-Monique Dhelsing,desor apresenta o percurso de um agricultor, escritor e activista que desde o início dos anos 60 nunca deixou de batalhar em prol de uma agronomia defensora dos princípios vitais de existência na Terra; Campo Sagrado, Guerra Sagrada (2013), de Lech Kowalski, mostra com grande eloquência cinematográfica, em campos da Polónia, um dos mais recentes ataques de empresas multinacionais da indústria energética, o apoderamento de terras com vista à exploração de gás de xisto (assunto que o MAPA tem vindo a acompanhar também em Portugal) e a resistência camponesa.

 Júlio Henriques

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One Person Reply to “Cinema com terra”

  1. Enquanto houver quem luta a humanidafde sobreviveerápara um dia poder viverlivre e na solariedade. Um abraço forte
    Filipe


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