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Meu querido mês de Agosto

Meu querido mês de Agosto


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Vivo na zona centro do país há quinze anos, mais precisamente no concelho de Tondela. Foi aqui que durante toda a minha infância e parte da juventude passei as férias de Verão. Foi cedo que me habituei a ver o Verão chegar com tudo o que lhe é característico: o calor seco; os emigrantes; as inúmeras festas “religiosas” que esperam religiosamente pelo dinheiro que os emigrantes ainda possam trazer, e claro, o fumo permanente no ar que se respira, o som das sirenes e dos motores dos aviões e helicópteros que combatem os incêndios tão “típicos” e sazonais.

Este ano não foi diferente, vi a Serra do Caramulo a arder mais de uma semana. Vi o presidente da Républica a dar publicamente as condolências à família de um banqueiro, ignorando a morte de uma jovem bombeira nesse mesmo dia no Caramulo. Vi o primeiro ministro a voar para o centro de comando de Viseu sendo apresentado, na página da protecção civil, como a “autoridade no local”. Vi o candidato pelo partido que detém a Câmara a ter o protagonismo mediático normalmente ocupado pelo presidente. Vi o corpo de bombeiros do Campo de Besteiros, zona operacional do fogo, sem comandante porque estava de férias e não voltou. Ouvi relatos de bombeiros que estiveram mais de 20 horas a combater o incêndio sem lhes levarem água ou comida tendo que descer a Serra para virem alimentar-se. Vi o apelo dos bombeiros à população a pedir comida e assisti à rapidez com que a população acudiu. Ouvi relatos de “fogo controlado” que não correu bem por desconhecimento do terreno. Ouvi repetidamente a história dos meios de ataque aéreo, de como faltam mais, e vieram-me à memória as imagens de infância dos aviões Hercules C130 da força aérea a apagar fogos exactamente na mesma Serra. Vi soldados da GNR com equipamentos que custam o equivalente a equipar 10 bombeiros voluntários. Vi o fogo a não poder ser combatido por meios aéreos em alguns sítios por causa dos geradores eólicos estrategicamente colocados nas cordilheiras das serras, talvez por falta de costa atlântica onde os pôr… Vi a polícia judiciária a cagar números de detidos por fogos florestais. Vi a criação de uma página de ódio no facebook a defender a morte dos suspeitos pelo incêndio do Caramulo. Ouvi novamente chamar floresta a verdadeiros pomares de eucaliptos e pinheiros onde a monocultura raramente é excepção, e pelos mesmos oradores que defendem com unhas e dentes a limpeza incondicional das matas exterminando toda a bio-diversidade que possa existir ao nível do solo.

Vi e ouvi tudo isto e muito mais, porque os meus amigos da aldeia, aqueles com quem eu brincava quando era novo, partiram e com eles muitos outros, à procura de um futuro melhor “lá fora”. E todos os anos são mais. O interior perde pessoas todos os dias, os campos vão sendo abandonados e entregues a uma gestão à distância onde a solução “eucalipto” mais tarde ou mais cedo baterá à porta na mão de um senhor engravatado de qualquer empresa de celulose. Esta solução, que aos olhos de muitos parece a melhor, esconde factores como a forte acidificação dos terrenos, o esgotamento das reservas de água no subsolo e, claro, a rápida propagação dos incêndios. A floresta não é isto, ao invés de ser resultado e motivo directo da emigração, devia e podia ser motivo de atracção e estabelecimento de pessoas no interior. A floresta mista e autóctone é fonte de rendimento durante o ano todo se assim o desejarmos. Da floresta podemos extrair biomassa, estrumes, frutos de bosque, aromáticas, mel, um sem número de cogumelos silvestres, etc. Uma gestão sustentável destes recursos, para além de criar postos de trabalho, mantém a floresta ordenada e vigiada permanentemente. Mas há quem não queira isso, parece que a pasta de papel também se vende muito bem “lá fora”. O Estado observa, aplaude e estimula, com portagens e eucaliptos a desertificação da província. O interior transformou-se numa grande “reserva de índios”, com o seu artesanato, os seus queijos, os vinhos, as chanfanas do Caramulo e, claro, os incêndios florestais… Tudo propositadamente “Very typical”.

Roque Hermínio Carreira

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