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Grades Invisiveis

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Receita para cometer um assassínio e sair impune

1º- Escolher uma vítima pobre, de preferência de uma etnia minoritária. A receita é tão eficaz que pode até ser uma criança de 14 anos;
2º- Apanhá-la numa situação de delito de pouca gravidade, persegui-la e disparar directamente à cabeça quando ninguém estiver a ver;
3º- Plantar uma arma no local e dizer que era da vítima;
4º- Lançar uma pequena campanha mediática sobre bairros sociais, como sendo perigosos e cheios de criminosos;
5º- Escolher um advogado bem influente (como, por exemplo, o João Nabais). Uma vez mais, a receita é tão eficaz que o advogado pode até ser de esquerda;
6º- Ir para um Tribunal – onde se pode sempre contar democraticamente com uma boa dose de discriminação – longe da opinião pública, fazer choradinho, alterar uma ou outra vez a versão das coisas e…
… voilá! Absolvição!…
e regressa ao trabalho de arma na mão!

O agente da PSP que matou o jovem “Kuku” da Amadora foi absolvido em Tribunal no dia 5 de Dezembro de 2012. Em 2009, três agentes da PSP à paisana num carro civil perseguiram Elson Sanches, conhecido no seu bairro por Kuku, juntamente com outros jovens que se encontravam num veículo suspeito de furto. Segundo o que se deu como provado em tribunal, depois dos jovens abandonarem a viatura e tentarem fugir, o agente Diogo G. perseguiu o menor e acabou por disparar um tiro a 11cm da cabeça dele. A única testemunha do que aconteceu é o próprio agente.

Ao lado do corpo do Kuku foi encontrada uma arma, sem impressões digitais. Como o jovem não usava luvas é incoerente assumir que a arma era dele. Mas o polícia justifica que disparou porque pensou ter visto e ouvido o jovem a puxar de uma arma. Que moral retira a justiça portuguesa desta história?

Miúdos de 14 anos que roubam um carro para dar umas voltas são sujeitos tão perigosos, que não existe crime se dispararmos directamente à cabeça de um deles, à noite, numa vala, sem ninguém a ver. Aliás, nesses bairros toda a gente é tão perigosa que “o agente “não podia” ter actuado de outra forma”, declarou a Juíza na leitura da sentença. “Perseguiam suspeitos perigosos, que seguiam num carro furtado e pararam num bairro problemático da Amadora [Santa Filomena]”, segundo citação no semanário Sol.

Agir em legítima defesa, de acordo com a sentença, significa não poder ter feito outra coisa, como por exemplo imobilizar o sujeito, já que estava a 10 cm dele!

Grades Invisíveis

Nos bairros da periferia de Lisboa onde predomina a habitação social de realojamento, a relação diária com a polícia pode ser comparada ao que muita gente só acaba por viver quando está numa manifestação mais tensa. A intimidação, o olhar ameaçador de quem está pronto a agir e a brutalidade física perante qualquer agitação.

Essa presença e atitude violentas dão origem a espancamentos e humilhações quase todos os dias, como algo que já faz parte da vida de quem vive num gueto, a par da pobreza e falta de oportunidades. “Estamos na rua, tranquilos a conversar, chega um carro patrulha e a abordagem é logo como se fossemos criminosos. Provocam, insultam e abusam. Se vais para a esquadra, nunca sabes em que estado é que chegas a casa no dia a seguir”, confessa ao Mapa um jovem morador do bairro de Santa Filomena, que não se quis identificar. Não é, portanto, de estranhar que quando um polícia tenta apanhar alguém, esse alguém tente fugir! Tal como nas manifestações.

Há quem pense e escreva sobre este tipo de quotidiano, onde o abuso de autoridade é só uma das partes mais fisicamente visível dos problemas que existem, problemas de resto transversais a toda a sociedade, mas ali mais flagrantes.

noz vida e preso sem diretu a percaria
ez kre ser pastor i kriano sima limaria
mal nu nasci ez ta obriganu a sigui um escola
ki invez di inchinanu ta manipulanu i apresionanu na limiti,
pa impidi disinvolvimento di noz menti,
ez teni medo di infrenta homis conscienti

a nossa vida é presa sem direito a precária,
eles querem ser o pastor e criar-nos que nem um rebanho
mal nascemos somos obrigados a seguir uma escola
que em vez de nos ensinar, nos manipula e nos aprisiona no limite,
para impedir o desenvolvimento da nossa mente,
eles têm medo de enfrentar pessoas conscientes
Boss

excerto da canção Grades Invisíveis
(com Loreta, Tchola, Nhaco Rapazinho e Chullage)

Palavras que falam de viver em guerra, numa prisão alargada que o sistema tenta manter invisível. A prova disso é que um miúdo foi assassinado para depois virem dizer que não existem culpados!

Que resposta haverá a dar a isto? Por parte de todos que ainda sentem o grotesco e a inversão manipuladora desta situação, independentemente de ter sido no nosso bairro ou não…

Muito mais gente haverá a assumir igualmente que já não espera nada dos tribunais a não ser condenações para os pobres e absolvições para quem tem farda ou dinheiro. É o que acontece no dia a dia do país e é , também, o que acontece nos casos de jovens que morreram às mãos de agentes da lei. Como o Toni na Bela Vista e outros mais (ir a http://brutalidadepolicial.blogspot.pt/ para mais informação).

E em vez de aguardar que a justiça chegue um dia, ganha força a necessidade de unir e agir em defesa própria, reconquistando o respeito merecido que tanto falta. Isto é demonstrado através de solidariedade, participando em projectos comunitários, jornais, documentários ou música. Mas, vivendo em guerra, não é de estranhar que alguém também atire pedras.

É importante encontrar formas de tornar estas grades mais visíveis e quebrar o isolamento a que as periferias foram condenadas. Talvez, então, um polícia que ande à paisana pense duas vezes antes de disparar contra a cabeça de um miúdo negro num bairro pobre.

O jornal Mapa solidariza-se com a família do Kuku, que não só perdeu um filho e irmão tão jovem, como ainda viu a sua imagem difamada nos média e o culpado da morte a ser absolvido num julgamento racista e preconceituoso.

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