shop-cart

Now Reading: Do fracasso como uma das belas artes

Do fracasso como uma das belas artes

Do fracasso como uma das belas artes


Print Friendly, PDF & Email

Abdel-Kader Zaaf nasceu a 1917, na cidade argelina costeira de Chebli. Ciclista menor, apesar de obcecado entusiasta, acabou vilipendiado pelos poucos que lhe descobriram a faceta literária. Aborta o seu único livro, “Mémoires”de imensas páginas, em 1983. Paga a sua edição de 1500 exemplares com o que lhe resta na algibeira, sendo postumamente impressa uma segunda edição nos anos 90, da qual só reza a História do seu fracasso comercial.

Em 1948, após ter sido campeão na Volta à Argélia em bicicleta, é seleccionado para correr a Volta à França em que participa 4 vezes, chegando apenas numa delas a cruzar a linha de chegada em Paris, no último lugar, lanterne rouge no vernáculo dos entendidos.

“Mémoires” é uma chinfrineira de palavras a espirrar, altíssimas, a cheirar à poeira de muitos caminhos, olhar de quem já viu moscas sobre tudo o que existe. Auto-biografia com lamirés de memória da guerra independentista da Argélia, azedumes de filósofo a ladrar ao poder, gémeos a duas rotações por segundo. (De apontar que a retórica tropeça, roça, até! o boçal, quando se detém com vã e frígida pompa em certas contemplações do Mont Ventoux.)

Os pensamentos que o vão ocupando são pautados no livro por indicações do número de expirações a cada minuto, com todo o rigor científico de uma obsessão, interrompida apenas quando, de alma mole, fala de uma paixoneta por uma mulher, militante da Front de Libération Nationale argelina, que se lhe esfumou das vistas após um dos ataques de retaliação na capital. Recorda-lhe especialmente os cabelos, que tresandavam a guerra, e que ele beijava quando ninguém os via.

Com palavras bruta-montes, e apesar de ter passado as passas do Algarve a escapulir-se aos “pied-noir” durante o enrijecimento dos seus ataques ultra-direitistas, Zaaf espraia-se em descrições minuciosas do desaire das maminhas árabes a dar-a-dar, chicoteadas pela polpa do vento enquanto fugiam, upa, upa! Dos exércitos colonos, a brilhar com todos os músculos untados, PUM!PUM!zuca, zuca. enquanto perfumavam o ar de chumbo.

Em 1950, consta que na 13ª etapa da Volta à França, agarra morto de sede a garrafa que lhe oferece um espectador, cheia de tintol, bebida esta com que Zaaf não estava familiarizado graças à sua disciplina islâmica. A mistura com uma quantidade superlativa de anfetaminas consumidas a la garder nestas andanças, deu-lhe a volta ao bucho, começando por ziguezaguear a estrada até desfalecer encostado a um carvalho. Mal recuperou os sentidos, agarrou-se obstinadamente à bicicleta e retomou o percurso, com olho de peixe esganado, no sentido oposto. Zaaf relata este episódio da sua vida com laconismo.

Diletante das palavras, personalidade peripatética c’um fervor amoroso pelas paisagens nuas, é, em tudo, o mais épico dos falhados. O ciclista descreve-se com uma cabeça enorme que lhe pesava nas subidas, um par de olhos que eram como abutres em flor e uma boca que se insinuava intelectual, especialmente quando ofegante. Morreu a 22 de Setembro de 1986 de congestão pulmonar.

 

With

8

Views


Written by

Jornal Mapa

Bookmark this article


More from Desnorte Category