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Now Reading: «Crítica em pleno combate»

«Crítica em pleno combate»

«Crítica em pleno combate»


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Por Maria Magalhães Ramalho
mariabaptistaramalho@hotmail.com

 

Paris: Barricadas da Comuna em 1871 e na Rua Le Goff em 1968

A leitura do livro «A Revolta de Maio em França» editado pela Dom Quixote em Novembro de 1968, levou um funcionário da «Comissão Central de Exame Prévio» (comissão de censura do regime) a concluir o seguinte:
«Para melhor exemplificação transcrevemos algumas partes que consideramos de maior gravidade: “A única chance do movimento é justamente essa desordem, que permite às pessoas falar livremente e que pode conduzir a uma certa forma de auto-organização” – Cohn-Bendit, a págs. 31. “Nós podemos ser o detonador, mas a revolução só seria feita pelo conjunto das classes trabalhadoras, a operária e a camponesa.” – Jean-Paul Sartre, a págs. 63, atribuindo esta afirmação aos estudantes.»
Segundo investigação elaborada por Maria Luísa Alvim este livro será imediatamente proibido pela censura numa altura em que, curiosamente, Salazar já se encontrava moribundo. Implícito nesta proibição estava o medo que ainda em Novembro de 1968 se sentia nas esferas do poder relativamente ao movimento criado em França, nomeadamente pela ressonância que este estava a ter no resto do mundo.


Maio de 1968 [numa pesquisa de imagens na internet]

No entanto, esta erupção revolucionária que não teve por base uma razão económica mas que, pelo contrário, nasceu da denúncia das condições criadas pela sociedade de consumo, acabou por obrigar a um reajustamento do capitalismo mundial, reforçando-se o seu domínio sobre todos os aspectos da vida, o «Espectacular Integrado», fase em que nos encontramos hoje, como bem descreveu Guy Debord nos seus textos.

«Foi uma grande sorte termos sido jovens nesta cidade, quando pela última vez ela brilhou de um tão intenso fogo».

O objectivo deste texto é dar a conhecer o papel que um pequeno grupo de «empreendedores de demolições», os Situacionistas, teve na revolta de Maio, papel este pouco conhecido entre nós. Os seus slogans, fortemente subversivos e poéticos, continuam ainda hoje a apelar à imaginação mas também à acção directa: «Sob as pedras da calçada a praia»; «corre camarada o velho mundo está atrás de ti», «o tédio é contra-revolucionário».
Se passados 50 anos desta data se verifica uma generalizada descrença relativamente a algumas das ideologias e figuras que estiveram na base dos acontecimentos, as inscrições situacionistas então espalhadas pelas paredes de Paris, assim como o pensamento que as inspirou, não parecem envelhecer, continuando a apelar à realização de uma revolução que ficou por fazer.

«É um belo momento, esse que se põe em marcha um assalto à ordem do mundo».

Um dos acontecimentos que estará na origem do Maio de 68 foi o escândalo criado, ainda em 1966, pela divulgação de uma pequena brochura anónima, mais tarde atribuída a Mustapha Khayati, aluno da Universidade de Estrasburgo e membro da Internacional Situacionista (I.S.). Da leitura do texto fica clara a sua inspiração no pensamento de Debord que, na época, se encontrava a finalizar o livro: «A Sociedade do Espectáculo», editado apenas um ano depois.

O tumulto causado por esta brochura denominada: «De la misére en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens d’y remédier», vai-se espalhar depois como um rastilho pelos meios estudantis e intelectuais de França, mas não só. A leitura deste texto, que deveria ser retomada na actualidade, colocava a nu, numa crítica feroz, o tipo de vida dos estudantes, a sua miserável dependência em relação a diversos sistemas de poder como o Estado, a família, a universidade, e até o meio intelectual da época, denunciando o modo como todas estas estruturas se encontravam ligadas ao sistema «espectacular-mercantil», promotor da alienação e da passividade.
O livro «A Sociedade do Espectáculo», considerado pelo autor, mas também por muitos outros, como uma das bases teóricas fundamentais para o eclodir do movimento de 68, conseguirá alcançar nessa época também uma ampla divulgação: «Aqueles que querem abalar realmente uma sociedade estabelecida devem formular uma teoria que explique fundamentalmente esta sociedade».
O ano de 1967 ficará ainda marcado por outra importante publicação a «Arte de Viver para a Geração Nova» da autoria de Raoul Vaneigem, também ele destacado situacionista, verificando-se, depois, como muitas das citações deste livro acabaram nas paredes de Paris. Vaneigem como os outros camaradas da I.S., denunciava o conformismo que era incutido pela sociedade de consumo, apelando à crítica da vida quotidiana e à revolta contra aquilo que apelidava de «doença da sob(re)vida».
Debord refere que alguns meses antes do eclodir da revolta estas obras foram intensamente divulgadas, sendo mesmo as mais roubadas nas livrarias durante todo o ano de 1968.
Apesar da sua densidade teórica, os textos não deixavam de interpelar os leitores convocando-os à acção: «Depressa» dizia apenas talvez um dos mais belos lemas escritos nas paredes nesses dias afirmava Debord. A crítica era dirigida não só à sociedade de consumo capitalista e todas as suas falsificações como, também, à alternativa burocrato-estalinista com as suas estruturas de controlo, nomeadamente os sindicatos, propondo a I.S., em contrapartida, uma via que reunisse, numa única experiência, todos os aspectos da vida sem qualquer separação: arte, política, poesia, filosofia, lazer, amor etc., e onde o modelo organizacional da sociedade deveria seguir o exemplo dos Conselhos Operários: auto-gestão e democracia directa.

«Ceux qui parlent de révolution et de lutte des classes, sans se référer explicitement à la vie quotidienne, sans comprendre ce qu’il y a de subversif dans l’amour et de positif dans le refus des contraintes, ceux-là ont dans la bouche un cadavre.
COMITÉ ENRAGÉS-INTERNATIONALE SITUATIONNISTE LE COMITÉ D’OCCUPATION DE LA SORBONNE

Universidade de Nanterre em 1968 | Cartaz de Maio de 68

Um dos grupos revolucionários mais aguerridos do Maio de 68 era designado como «Enragés» (raivosos em português), sendo responsável pelos primeiros motins no Campus Universitário de Nanterre, ainda em Janeiro de 1968. No entanto, é habitual esquecer este facto remetendo para o dia 22 de Março a origem do movimento, altura em que diferentes facções de esquerda, juntamente com os anarquistas, se unem numa grande revolta contra a autoridade.
Esta universidade recém-criada situava-se nos arredores da cidade, sendo os seus estudantes bastante politizados pelo contacto directo que tinham com o mundo operário e com a dura realidade dos bairros de lata que proliferavam em redor, em aberrante contraste com o novo Campus composto por edifícios que ostentavam uma arquitectura muito contestada primeiro pelos Letristas e depois pelos Situacionistas: «Non aux Bidon Villes non aux Ville –Bidons», dizia um cartaz de Junho de 68.


Ocupação da Sorbonne | Cartaz do C.M.D.O.

Mais tarde, já em plena revolta, será criado o «Comité Enragés-Internacionale Situationniste», grupo que adoptará tanto a teoria, como a prática situacionista, participando também na ocupação da Sorbonne, desta vez no coração da urbe.


Reunião de trabalhadores na Fábrica da Renault ocupada

É habitual esquecer-se que a revolta dos estudantes não foi um factor isolado mas que esteve associada a uma rebelião generalizada no país, levando à maior greve selvagem da história de França que envolveu cerca de 10 milhões de trabalhadores. Era o eclodir de um sentimento profundo como raramente se viu e o despertar do entorpecimento causado pelas maravilhas do consumismo do pós-guerra. É nesse ambiente que na noite de 17 de Maio surge, entre o grupo de ocupantes da Sorbonne, a decisão de criar um «Conselho para a Manutenção das Ocupações» o C.M.D.O, organização que durou apenas um mês mas que chegou a reunir cerca de 60 membros entre revolucionários, grevistas, operários e estudantes, encontrando-se, entre eles, destacados situacionistas como Debord, Alice Becker-Ho, Vaneigem e Eduardo Rothe, este último muito activo também na Revolução do 25 de Abril.

«Appelle à l’occupation immédiate de toutes les usines en France et à la formation de Conseils ouvriers. Camarades, diffusez et reproduisez au plus vite cet appel.
Sorbonne, 16 mai, 15heures 30».

 
Litografia de Asger Jorn e cartazes do C.M.D.O

Com uma rapidez impressionante o C.M.D.O promoveu, desde logo, contactos com fábricas em todo o país, gerindo não só a actividade dos seus camaradas, nomeadamente as suas deslocações, como os mantimentos necessários para abastecer o espaço que ocupavam, o Instituto Pedagógico Nacional, próximo da Sorbonne.
Segundo relato de um participante o que nunca podia faltar era gasolina, comida, dinheiro e vinho. Essencial era também a implementação de uma estratégia de divulgação dos seus objectivos, nomeadamente através de diferentes comunicados, canções, bandas desenhadas, frases espalhadas nas paredes e originais cartazes onde se liam as seguintes mensagens: «Abaixo a Sociedade Espectacular-Mercantil»; «Poder aos Conselhos Operários»; «Ocupação das Fábricas»; «Abaixo a Sociedade de Classes»; «Fim da Universidade».
Refira-se, ainda, um conjunto de quatro belíssimas litografias destinadas a financiar a actividade do grupo que foram criadas por Asger Jorn, considerado hoje o mais importante artista dinamarquês do século XX, membro da I.S. de 1957 a 1961.
Muito interessantes são também as músicas entoadas pelos Situacionistas nesses dias de Maio, revelando o entusiasmo revolucionário que se vivia, e o estilo que os caracterizava. Debord fez «Os dias de Maio», uma adaptação (detournement) de uma célebre canção anarquista da guerra civil espanhola «O Exército do Ebro», usando a mesma música mas criando uma letra que denunciava as manobras estalinistas para controlar o movimento. Alice Becker-Ho, sua mulher, escreve a «Canção para o CMDO» tendo por base a «Canção do Cerco a La Rochelle» de Jacques Douai, descrevendo, com grande intensidade, o ambiente de revolta nas ruas, denunciando a violência policial e apelando a uma contestação sem piedade:

«Le vieux monde et ses séquelles
Nous voulons les balayer
Il s’agit d’être cruel
Mort aux flics et aux curés»

Uma das marcas mais fortes da acção situacionista no Maio de 68 foi, de facto, o combate que travou contra alguns movimentos de esquerda. Debord afirmará mais tarde, a propósito dos acontecimentos: «o governo e os estalinistas trataram febrilmente de travar a crise (…)». Ou ainda, referindo-se às acções do movimento operário: « (…) Não sabem eles já, instruídos pela sua longa experiência, que antes de mais é preciso escorraçar os estalinistas das Assembleias? Foi por não ter podido fazê-lo que a revolução encalhou em França em 1968, e em Portugal em 1975».
Outro aspecto interessante é verificar que, durante este período revolucionário, a prática da «Deriva», tão exaltada pelos Letristas, e depois pelos Situacionistas, teve aí o seu momento de concretização absoluta convertendo-se, então, numa verdadeira «Psicogeografia insurrecional de Paris», com a descoberta aventurosa dos locais de combate, das barricadas, das viaturas incendiadas, das instituições ocupadas e dos inúmeros locais de festa e encontros espontâneos.

«O que eles dizem de Maio sumir-se-á na indiferença e será esquecido; e aquilo que nós dizemos irá permanecer, acabando por ser entendido e retomado.»

Com o final da «Grande Festa» veio também o balanço feito sobre certos erros cometidos, nomeadamente o terem deixado isolados alguns grupos de combate, e o não terem usado meios mais rápidos de difusão de mensagens pelas fábricas e por toda a Europa.
No entanto, os Situacionistas concluem, num longo texto publicado no derradeiro número da sua revista a «Internacional Situacionista» editada em Setembro de 1969 que, apesar de vencido, o movimento não tinha sido esmagado, referindo, como exemplo, a burguesia que perdera a confiança no país, o poder de De Gaulle que tinha sido mortalmente atingido, a desordem instalada nas universidades e liceus, bem como as greves e motins que, inspirados no movimento de Maio, se espalhavam por todo o mundo.
É a última frase do texto que, de alguma forma, irá resumir a convicção profunda da I.S. sobre tudo o que se tinha passado no ano anterior:

«Estamos doravante seguros dum desenlace satisfatório das nossas actividades: A Internacional Situacionista será superada.»

 


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