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O Mundo Possível

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(Editorial da edição #13 em papel)

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A chamada esquerda parlamentar viabilizou o orçamento de estado apresentado pelo PS. Com a viabilização do orçamento, viabilizou-se também a permanência do Partido Socialista no governo. Era essa, aliás, a consequência desejada. Uma novidade histórica. Um orçamento que, dois ou três anos antes, seria rejeitado por ser ainda demasiado na linha dos anteriores, conseguiu passar com os votos da franja anti-austeritária do parlamento. Explicaram-nos que isto era o que pediam os tempos excecionais que vivemos, em que a escolha se resume a um muito mau ou a um mal menor. Não era o orçamento ideal, longe disso. Era o orçamento possível. E, por consequência, o governo possível. Há pouco, o governo possível assinou, como membro da UE, um acordo com a Turquia de reenvio para território turco dos novos migrantes e refugiados que cheguem às ilhas gregas. Um acordo que não cumpre o direito internacional de asilo e que muitas personalidades e organizações ligadas aos direitos humanos consideram próximo duma sentença de morte para milhares de pessoas. Que teve até a oposição do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Poucos dias depois, a esse gesto de assinatura por procuração que quase pode parecer dum automatismo etéreo, o governo possível acrescentou o bem mais real envio de 34 peritos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) para “apoiar as autoridades gregas na implementação do processo de readmissão para a Turquia”, de acordo com nota de 1 de Abril do Ministério da Administração Interna liderado por Constança Urbano de Sousa. O mesmo governo possível que, ainda a nível europeu, prepara medidas draconianas de controlo, vigilância e repressão e que as aplica já numa militarização inaudita das ruas das cidades, onde a presença de polícias de metralhadora em punho deixou de ser estranha. O governo possível que, há dias, exigiu serviços mínimos aos estivadores em greve, pactuando com o despedimento colectivo encapotado que o porto de Lisboa tenta levar a efeito. A chamada esquerda parlamentar aproveitou para demarcar o seu território. Insurgiu-se contra o acordo UE-Turquia, terá criticado o envio dos 34 peritos do SEF, vilipendiará o policiamento demasiado visível e agressivo das urbes, franzirá o sobrolho aos serviços mínimos que o governo decretou para quebrar a greve dos estivadores. Mas não pensa que essas são questões que podem transformar o governo em impossível. E mantém o apoio parlamentar. O fundamental, depreende-se, é evitar que uma direita vil imponha doses impiedosas de austeridade. Só isso parece interessar. Tudo o resto, mesmo que implique uma vida em estado de emergência permanente, mesmo que signifique a morte de milhares de seres humanos, parece submeter-se à gestão do monstro austeritário. Esta redução da política à economia é talvez a marca mais visível da derrota absoluta da opção eleitoral de projectos que se pretendam de transformação social. A imagem de António Costa, ladeado por Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, a enviar agentes do SEF para ajudarem Tsipras a devolver refugiados para a morte certa de que tentavam escapar seria um belo retrato fúnebre. Mapear as experiências que hoje, com as suas ideias e as suas práticas, as suas construções e as suas resistências, nos propõem possibilidades futuras parece-nos bastante mais acertado do que perder tempo com o jogo parlamentar. Experiências que acreditem nas pessoas ao ponto de proporem a sua auto-organização. Que enviem a economia para o seu papel de ferramenta e que identifiquem a ideologia do crescimento económico infinito como um elemento de insustentabilidade e não de salvação do que quer que seja. Que coloquem a vida, nos seus sentidos biológicos e filosófico, como farol das acções. Um Mapa que mostre trilhos que nos permitam imaginar caminhos no actual deserto.

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