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Novo circo, velho espetáculo

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A 29 de Setembro, o grande circo tem o seu desfecho depois de semanas de sessões contínuas. Somos chamados a escolher aqueles que nos representarão a nível político nos municípios e freguesias onde vivemos. Olhando em qualquer direção, somos atacados pela frenética campanha eleitoral que nos enche os ouvidos, os olhos e, se não tivermos cuidado, a alma. Bastam 3 minutos de atenção para concluirmos que os candidatos, sejam de que partido forem, têm como denominador comum o facto de se considerarem a eles próprios os mais competentes, os mais aptos ou os únicos que se encontram à altura da tão árdua tarefa de comandar os destinos do município ou da junta de freguesia. Uns declaram querer um Porto Forte, outros querem-no virar ao contrário. Outros há ainda que querem fazer ou, dependendo do lado para onde acordaram, sentir Lisboa. Por todo o país sucedem-se promessas de velhos conhecidos ou de jovens promessas sorrindo entre as gravatas institucionais e os blazers informais.

Fica-se com a impressão de que a democracia, esse produto que nos vendem como o sabonete com o mais agradável odor, se traduz na prática em haver uma lista infindável de candidatos que, sem perceberem nada das vidas concretas das pessoas, pretendem geri-las, ou pior ainda, conhecendo-se de há muito pela vizinhança da freguesia, rapidamente as reduzem à mera condição de fregueses das suas redes de clientelismo, corrupção e compadrio. Autoproclamados especialistas que, munidos de orçamentos, estatísticas, inquéritos e gabinetes, tratam dos interesses próprios em primeiro lugar e, como se não bastasse, ainda se divertem a brincar com as leis que fazem, uns com leituras criativas, outros com tentativas de impugnação de listas concorrentes. E nas autárquicas, o jogo dos pequenos poderes na santa terrinha, não é menos nauseabundo do que as disputas já gastas entre os figurões políticos.

Enquanto os candidatos se digladiam nas arenas, ardem os montes, destruindo um sem número de espécies e ecossistemas, mas também dinâmicas sociais e económicas locais, tendo já sido ceifadas 8 vidas de bombeiros. São então feitos os cálculos para determinar qual a área ardida e produzir análises baseadas na ideia de que a floresta pode ser um investimento, uma aposta de lucro ou um mercado a explorar. Entretanto, os mesmos políticos que se desdobram em pedidos de condolências às famílias dos bombeiros, aprovam um novo regime de arborização que é um convite declarado à indústria da celulose e à sua matéria-prima principal, o eucalipto que, ironia das ironias, facilita a proliferação das chamas como nenhuma outra espécie.

Eis então que vislumbramos uma coisa que faz mais sentido do que mil análises de especialistas: os bombeiros morrem na guerra contra os incêndios enquanto os políticos vivem na paz dos seus gabinetes. O fogo, sempre tão determinado na sua ação, enganou-se. Com tantas coisas que por aqui abundam, que nos fazem viver de joelhos e cabisbaixos, e com as quais se podia alimentar, tinha logo que ir consumir matas e florestas. Votar nestes políticos ou em qualquer outros é, felizmente, uma prática em desuso. Nas eleições autárquicas de 2009, a abstenção chegou aos 40% e, à medida que a confiança nas lideranças, nos chefes e nos patrões se afunda no ralo, torna-se urgente pensar no que nós podemos fazer por nós próprios.

Para lá da abstenção, a gestão autónoma das nossas vidas é uma prática à qual, infelizmente, falta dar uso, mas à qual teremos de dar inevitavelmente atenção. A bem ou a mal serão as discussões sobre o que comer que acompanharão as subidas abruptas dos preços dos alimentos, por exemplo. Tal como as discussões sobre onde viver acompanharão a impossibilidade de pagar os arrendamentos. Os próximos episódios continuarão a trazer surpresas e a nova temporada, embora fresca e nova, trará os mesmos personagens. Para lá das autárquicas (e também para cá), estão as consequências da aplicação da nova lei do graffiti e os impactos da paranoia securitária na Avenida Almirante Reis em Lisboa, mas também as marcas da nova exploração de ouro na freguesia da Boa Fé e a repressão aos trabalhadores do Minipreço.

A democracia, cuja essência todos os políticos dizem conhecer, enquanto se contradizem sobre a forma como ela deve funcionar, é, inevitavelmente, a grande falácia da atualidade. Por entre mais austeridade e mais crises, lá se vai afundando e mostrando a sua verdadeira cara, cada vez mais siamesa da ditadura. E se isso é algo que se revela no desencanto da politica e da abstenção, surge ainda mais no encanto da expressão apolítica, e na lógica da ação individual e coletiva, onde a representatividade democrática se perde por entre a dispersão, a espontaneidade, a rapidez e a simultaneidade de revoltas que podem surgir por onde quer que seja.

Os episódios desta temporada são tantos e diversos que é difícil saber para onde olhar. Talvez um mapa nos dê jeito.

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