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ZAD, mais do que uma luta contra um aeroporto

ZAD, mais do que uma luta contra um aeroporto


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Notre Dame des Landes, 20km de Nantes, França, vários eixos de luta cruzam-se em redor do projecto do novo aeroporto na metrópole de Nantes, num protesto que junta agricultores, moradores e activistas, e que, em quatro décadas, se tornou no mais massivo lugar em protesto na Europa. Determinadas a parar a destruição de cerca de 2.000 hectares de zona agrícola e rural, milhares de pessoas lutam neste momento contra a destruição de casas e habitats naturais que, caso prossiga, significará a ruína de muitos camponeses que daí retiram o seu sustento.

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A resistência contra a construção do novo aeroporto de Nantes começou há 40 anos.

Os primeiros planos para este aeroporto surgiram em 1973. No entanto, o projecto e os requisitos para expropriação das terras em benefício da Vinci Corporation, detentora do direito de construção e exploração desta estrutura, só foram aprovados pelo governo em 2003: sucessivos governos centrais e os vários municípios envolvidos recorreram ao engano e a argumentos parciais e irracionais para impor este projecto à população. Esses argumentos, que vão desde as estimativas de passageiros a estudos sobre questões de segurança e de poluição sonora, passando pelas promessas de emprego e chegando à ironia de denominarem este novo aeroporto de “projecto de alta qualidade ambiental” ou “aeroporto verde”, foram todos desacreditados por diversas avaliações independentes que contradizem a análise oficial.

O governo central recusou sempre considerar qualquer alternativa a este projecto faraónico, como seria, por exemplo, a simples renovação do aeroporto de Nantes já existente, que, ainda em Setembro passado recebeu o prémio ERA (European Regions Airlines) 2011-2012 para melhor aeroporto europeu. Estudos independentes1i mostram, entre outras coisas, que o lucro económico geral e factores como tempo ganho, impacto ambiental e a atractividade da região foram grosseiramente sobre-estimados, tais como o foram as perspectivas de crescimento de tráfico aéreo na região, se tomarmos em conta o actual estado da economia e o aumento dos preços dos combustíveis fósseis. Numa perspectiva inversa, o custo total do projecto, incluindo os desenvolvimentos auxiliares, como estradas e transportes, foi sub-estimado por uma larga margem de 550 milhões de euros, tendo sido este valor acrescido às perspectivas iniciais. Em território francês pode fazer-se um paralelo com as construções do túnel do canal da Mancha, que une França ao Reino Unido, e do viaduto de Millau, também no sudoeste de França, todos projectos em larga-escala que incorreram em custos bastante superiores aos cálculos iniciais.

A resistência contra este projecto começou desde que os primeiros planos foram apresentados, mas foi nos últimos quatro anos que habitantes locais, agricultores e activistas ambientais e anti-capitalistas que vivem na ZAD (Zone d’Aménagement Differé – Zona de Desenvolvimento Adiado), começaram a resistir de uma forma directa, ocupando casas e terras expropriadas pelo Estado ao longo dos últimos tempos. A ZAD foi então renomeada como “Zone a Défendre” (Zona a Defender), ocuparam-se casas abandonadas, construíram-se casas e cabanas no chão e na copa das árvores e, desde então, uma grande parte deste território tem sido utilizado para desenvolver actividades fora do sistema comercial capitalista e para preservar a biodiversidade da área, organizando-se hortos comunitários, encontros locais e internacionais (Camp Action Climate, Anti-G8 Camp e encontro de grupos como Reclaim the Fields – rede envolvida na ocupação de terras e soberania alimentar, entre outros) e outras actividades.

O início das obras para o aeroporto e para as estradas auxiliares estava agendado para o fim de 2012. Os seus opositores estão determinados nas suas ações e acreditam que o aeroporto é inútil: economicamente não seria benéfico, teria um impacto negativo nas alterações climáticas e viria a destruir uma área da França que é, até agora, uma zona rural e agrícola. Em Outubro passado as autoridades começaram a invadir violentamente as terras onde é previsto começarem as obras, despejaram e atacaram okupas, agricultores e habitantes locais que protegiam a zona. Os ocupantes da zona não pretendem ser removidos e continuam a resistir, construindo constantemente novas barricadas, bloqueando estradas de acesso, (re)construindo cabanas e casas e mantendo permanentemente actualizadas as informações diárias da luta contra o aeroporto (na ZAD, mas também em acções de solidariedade por toda a França) via internet e media independentes. Até Novembro de 2012 os mass-media franceses ignoravam esta luta, o que se alterou radicalmente desde o protesto massivo que então ocorreu, com a reocupação de terras e reconstrução de casas, onde 20.000 a 40.000 pessoas, de toda a França e não só, se deslocaram a Notre Dame des Landes com vontade de resistir e apoiar a luta. Todas as facções da luta contra o aeroporto uniram-se para trabalhar em conjunto e centenas de agricultores apareceram com cerca de 400 tractores e materiais de construção. Em menos duma semana, dezenas de casas e cabanas foram construídas e barricadas foram erguidas para controlar a acção e a violência policial que se continua a fazer sentir.

Esta luta pode ser vista como um exemplo da força do trabalho entre pessoas de diferentes camadas da sociedade que combatem o poder governamental e económico, combinando todas as possíveis estratégias para criar uma gigantesca contra-força à destruição conduzida pelas autoridades sedentas de poder e lucro. Além de um local de protesto, novas formas de viver e comunicar entre todas as pessoas envolvidas ajudam a criar um maior sentido de comunidade e apoio mútuo como alternativas a uma sociedade baseada somente na produção e na partilha desigual.

Urge lembrar que estas lutas se espalham por todo o Planeta, seja em Notre-dame-des-landes, no Val di Susa no Norte de Itália, onde há mais de uma década a população combate a construção de uma linha de comboio de Alta Velocidade, ou em Khimki, na Rússia, onde uma auto-estrada ameaça dilacerar uma floresta de mais de 1000 hectares. E que também se cruzam com a realidade portuguesa – a Vinci adquiriu recentemente a ANA e controlará também os aeroportos em Portugal. Esta luta é mais do que uma luta contra um aeroporto é uma luta contra o mundo que o acompanha.

 

 


website de ZAD: zad.nadir.org
Mais informações, estudos independentes em relação da construção do aeroporto em Notre-dame-des-landes: http://acipa.free.fr/Savoir/savoir.htm

Fotografias: Phil Evans
http://www.flickr.com/photos/37299426@N02/

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I.A. Camille

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