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Cheguei como quem chega a casa, a algo familiar e acolhedor onde se encontra o que nos é próximo e se sabe o lugar das coisas até de olhos fechados.

Saí de casa, daquela que me acolheu na minha última temporada ali e desci a avenida. A mesma avenida que tantas vezes subi e desci, desci e subi, tantas vezes mais do que uma vez ao dia, e dei por mim num lugar completamente desconhecido. Se por um lado me habituei às prostitutas, aos bêbados, novos e velhos, que por ali circundam, aos junkies em busca da próxima dose, só aqueles que vêem quem passa com o seu olhar alheado… não me habituei, e são para mim uma novidade os novos turistas novos, os Erasmus de Verão que por ali se passeiam e ocupam os passeios.

Deparei-me com um concerto de Jazz no renovado largo do Intendente, que se antes se enchia de putas e homens mal encarados, estava agora repleto de rapazes e raparigas loirinhos e de olhos claros. Não só estrangeiros, mas também aqueles lisboetas que querem ser alternativos e olham para um largo que, se antes tinha vida própria e característica, agora é completamente estéril de tal.

Desci mais um pouco, consolando-me com as frutarias de chineses e paquistaneses e mais esses que não portugueses, com as lojas de telemóveis e de produtos “indiferenciados”, e desemboquei no Martim Moniz. Antes praça tórrida mas com esplanadas diferentes, desde os chineses com os seus pãezinhos de vegetais, aos angolanos com as imperiais e mais coisas que desconheço mas sei que não vou saber nunca, ao quiosque do outro lado que, segundo um artigo que li no outro dia, pertencia ao descendente da mulher que fazia a fava-rica ali na mouraria. Um largo onde os não portugueses ficavam a falar com os seus turbantes coloridos e onde os miúdos aos Domingos jogavam cricket e durante a semana futebol.

Agora o largo está cheio de esplanadas e gente fashion, com dj´s a pôr música ao final da tarde, enquanto a outra parte dos alternativos lisboetas se refastelam nas esplanadas e puffs que por lá estão e saboreiam refeições do mundo. Os que habitavam o largo ali continuam, mas desta vez não no seu centro pois estão renegados para os muros de pedra atrás dos cafés fancy.

Tudo aquilo era tão estranho que fui então até ao largo da Ginginha e ali me sentei a saborear a velha ginja e a fumar um cigarro. Deleitei-me com as personagens que por ali passeavam e apanhavam ar. Não só os africanos que dali fazem o seu mercado improvisado e aproveitam o sol sentados nos banquinhos da praça da liberdade, ou lá como se chama aquilo, mas também aqueles que não pertencem a esta sociedade e no seu exterior optaram por viver. Será que nós a ela pertencemos ou temos aspiração a tal? Não seremos, ou não quereremos ser, tão exteriores a ela?

Nada como um bocadinho naquelas escadinhas de onde se vê o mundo – com os verdadeiros turistas de máquinas fotográfica bem grandes e meias nas sandálias, e com todos aqueles que fazem desta a sua cidade, sem a pretensão de ser algo mais do que aquilo que ela é e os que a querem transformar.

Antes, quando aquela era a minha cidade, enquanto deambulava pelas ruas e mais me caía em cima a noção de que ali estava, no meio de uma capital europeia, não deixava de pensar que aquilo era tudo tão rural e familiar. Uma noção de pequenez que não se sente noutras capitais, mas que não é de todo mau ou negativo.

Gostava de passear e ver as velhotas à janela ou os gatos. De conhecer o nome do senhor de mercearia ou da banca do mercado. De conhecer o senhor da papelaria e saber o nome da sua mãe, velhinha, velhinha.

É grande, mas parece pequena. É uma cidade que sempre amei e da qual sempre senti saudades quando estava fora, e era, sem dúvida, o meu ponto de comparação com tudo o resto… sempre disse que não me via a viver em nenhum outro lado senão ali.

Depois, depois descobri o mundo e o mundo descobriu esta cidade… que se quer tornar cada vez mais homogénea e igual a todas as outras que por aí existem. Um verdadeira capital europeia, com o seus muitos circuitos alternativos e comerciais, que se complementam entre si, e com isso fazem perder aquilo que é lhe único.

Gosto de saber que há outros sítios, e quando levo alguém a casa dos meus avós que ali moram, digo com orgulho ´chegámos ao campo`, um bairro pacato e de casas pequenas que não parece estar enfiado no meio de vias rápidas e terminais rodoviários. Mas também esse vai no sentido da prospecção e do ´luxo` que se tornaram estes paraísos no interior das metrópoles, com condomínios fechados e casas luxuosas, da junta de freguesia que só quer inovar para também fazer parte do roteiro da cidade. Para, e tal como os outros enfatizarão ao máximo aquilo que lhes é característico, pegar nisso e fazer disso a atracção turística, porque só assim é que a coisa pode crescer e multiplicar-se, principalmente o dinheiro. Haverá outra razão?

Do sítio donde nunca pensei sair, saio agora, acho que sei para onde, mas uma certeza tenho.

Independentemente do que aconteça, dos prédios e praças que se construam, ou mesmo que tudo arda e nada mais fique, a luz de Lisboa é única.

 

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Jornal Mapa

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