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Mãos à Terra

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Afinal o que podemos fazer? Para plantar uma árvore ou criar um projecto de plantação, não existe uma solução milagrosa para todas as situações. Cada caso é um caso. Antes de avançarmos para o terreno à que entender bem o que queremos, quais os nossos objectivos, a paisagem onde estamos, as características do solo e do clima. Pensando apenas na plantação de espécies perenes (não hortícolas) este “manual de boas práticas” é guiado por uma série de questões que pretendem ajudar a orientar a nossa iniciativa. O passo seguinte será por numa balança os dados que conseguimos recolher e ponderar a melhor solução para os nossos objectivos.

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Primeiras tarefas em áreas que tenham sofrido um incêndio

Proteger o solo

O solo é a base da vida, mas é repetidamente negligenciado. O solo é um recurso não renovável, pelo menos em termos da nossa escala temporal. Os melhores solos agrícolas já estão  ocupados e todos os anos se perdem áreas de solo pela erosão, perda de matéria orgânica e compactação, e claro, pela expansão e dispersão urbanas.
Porque a vegetação tem um papel fundamental na protecção do solo,  promovendo a infiltração equilibrada da água e evitando a sua escorrência superficial, os incêndios florestais contribuem para a perda de solo e provocam a destruição das suas propriedades químicas e actividade biológica.

O que fazer?

Criar barreiras nas zonas de escorrência logo após os incêndios. Estas podem ser feitas com barrotes de madeira (podendo utilizar-se algum do material queimado) dispostos na perpendicular da linha de declive do terreno, reduzindo a energia dos escorrimentos de água, minimizando assim perdas de solo e contaminação de linhas de água.

Aguardar e avaliar a reacção da vegetação. Podem ser feitos alguns trabalhos de limpeza de material queimado, mas há que evitar a  mobilização do solo e intervenções com maquinaria pesada nos primeiros tempos. Qualquer intervenção a ter que se realizar com máquinas deve sempre respeitar a topografia e trabalhar segundo as curvas de nível, minimizando a erosão e a perda de solo e nutrientes.

Evitar a queima de biomassa e a remoção desta dos terrenos. É preferível triturar a biomassa e depositá-la no chão, envolvendo a vegetação existente e entre linhas de plantação, se for caso disso. Fazer sementeiras de prado nas áreas queimadas pode acelerar o processo da regeneração vegetal, evitando perdas de solo, principalmente nas primeiras chuvas após os incêndios.

Não considerar a vegetação espontânea um «inimigo», mas sim um aliado que, bem gerido, aumenta a resiliência do terreno face aos fogos.

O que plantar?

A escolha das espécies a utilizar resultará da análise dos nossos objectivos e das características do sítio. A planta certa no local certo. As plantas evoluíram ao longo de gerações adaptando-se às características locais. Como tal a escolha de espécies autóctones é sempre uma ajuda para aumentar o sucesso da nossa plantação.

No caso de árvores de fruto, a opção por fruteiras tradicionais traz as vantagens da selecção feita pelas pessoas ao longo de muitas gerações, ao contrário das novas fruteiras apenas focadas na produtividade e na utilização de fertilizantes/herbicidas/pesticidas.

Ponderar os vários estratos que podem constituir a vegetação – árvores, arbustos, herbáceas – enriquecendo a biodiversidade vegetal e contribuindo para criar espaços diferentes para a avifauna local, que virão a ser parceiros na manutenção de um espaço mais saudável e sustentável.

As árvores são seres que podem viver mais do que nós. É essencial termos isso em conta antes de tomar a decisão das espécies a plantar.

Qual o objectivo?

Plantar uma(s) árvore(s) para contribuir para a recuperação/enriquecimento de um espaço natural, ou construir ou melhorar um jardim.
Planear uma área com vista à auto-subsistência ou com vista a produção económica.

Quais as características do local?

Há que saber no clima a precipitação (média anual e sazonalidade) e a temperatura (máxima e mínima e a presença ou não de geada). No solo há que saber a textura, profundidade, percentagem da matéria orgânica e pH. E na água o lençol freático e a origem de água da rega.

Como obter as plantas?

Comprar em viveiro, por um lado, facilita, mas por outro nem sempre conseguimos o que pretendemos. Sem esquecer que, por vezes, as espécies são mal classificadas.

Assim recolher sementes, germinar e engordar para depois plantar, pode exigir saber identificar as espécies no campo, mas é a única forma de garantirmos que o que plantamos provem de espécies locais ou próximas.

Como plantar?

A época do ano pode influir no sucesso da plantação. No geral, Outono e final do Inverno são boas épocas, garantindo alguma precipitação após a plantação e evitando geadas. No caso de árvores caducas é conveniente aproveitar a fase em que não têm folhas, pois estas encontram-se num período pouco activo.

Consoante os nossos objectivos, podemos plantar de forma isolada, agrupar as plantas em conjuntos, formar linhas, etc. Fazer a cova de forma a que o torrão da planta tenha o mesmo espaço para todos os lados, inclusivamente para baixo.  Garantir alguma permeabilidade no fundo e nas laterais da cova, picando o solo, para optimizar a escorrência de água e evitar o afogamento das raízes.

Regar bem a planta antes de plantar. Evitar a exposição das raízes ao sol e calor.  A planta não deve ficar com o colo nem enterrado nem acima da superfície.

Preencher o buraco com a terra retirada. Se a terra não parecer boa juntar terra vegetal com bastante matéria orgânica e/ou adubo bem decomposto, sem cheiros, caso contrário pode queimar as raízes. Calcar a terra após plantar e regar em abundância, evitando bolsas de ar entre o torrão e o solo. Garantir a existência de uma caldeira permitindo melhor retenção da água quando se rega, a acumulação de águas da chuva e mesmo da humidade atmosférica.

A colocação de hastes pode ser vantajosa em casos de plantações em terrenos ventosos. A utilização de protectores pode ser útil para evitar danos provocados por alguns animais e pode facilitar trabalhos de manutenção.

Cobrir a caldeira com material orgânico, como estilha de madeira, para minimizar perdas de humidade.

Controlo da vegetação existente

A principal actuação para o combate integrado dos incêndios é a criação de áreas corta-fogo. A diferença entre estas áreas corta-fogo e os corta-fogos comummente usados é a de que nas primeiras a vegetação não é eliminada na totalidade, apenas se reduz a massa combustível, diminuindo a quantidade de vegetação arbustiva e subarbustiva. Estes espaços, variáveis em largura e comprimento, têm por finalidade modificar o comportamento do incêndio, retardando-o. Estas áreas podem ser mantidas recorrendo-se ao pastoreio com gado rústico, mantendo um meio com menos combustível e favorecendo a presença de raças locais e outros produtos de interesse das populações. Uma solução mais amiga dos ecossistemas naturais e humanos, requerendo menor manutenção e uso de maquinaria do que os corta-fogos «tradicionais».

Recolher e germinar espécies autóctones

Carvalhos, sobreiros e azinheiras

A reprodução é semelhante para os vários Quercus: recolhem-se no Outono quando as bolotas se apresentam castanhas directamente da árvore ou do chão (caídas recentemente, quando ainda estão rijas). Semeiam-se logo cobrindo ligeiramente em recipientes individuais.

Aveleira

Recolhem-se as avelãs no final do Verão e semeiam-se a meio do Outono. É aconselhável escarificar antes de semear (desgastar um pouco a casca).
Podem ser reproduzidas por estaca, podendo assim garantir avelãs doces. Recolher estacas de ramos do ano, com casca de aspecto saudável e com 3 a 4 nós, garantindo que fica pelo menos um enterrado e um acima do colo.

Lavandulas

Recolher as inflorescências (flores) quando começam a secar (sacudir para ver se já caiem as sementes, que são pequenas e de tom acinzentado/castanho). Semear cobrindo ligeiramente, colocando 3 sementes por recipiente.

Azevinho

Recolher os frutos quando vermelhos no Outono. Retirar a pele e limpar bem as sementes da polpa em água, aproximadamente 5 por baga. Podem demorar até 2 anos a germinar.

Amieiro

Recolher os frutos (pequenas «pinhas») no Outono, quando estão já lenhosos e castanhos. Sacudir para libertar as pequenas sementes, semeando logo e cobrindo ligeiramente.

Estevas e afins

Recolhem-se os frutos, cápsulas lenhosas que se formam no centro do que foi a flor, no Verão. Abrem-se, fazendo uma ligeira pressão, libertando as muitas e pequenas sementes de cor escura. Convém escaldar as sementes antes de semear (como na preparação de uma infusão).

Salgueiros

Recolher as sementes dos amantilhos antes que comecem a libertar-se (penugem branca com as sementes agarradas). Semear logo.
Pode ser feito por estaca no Inverno. Recolher estacas de ramos do ano, com casca de aspecto saudável e com 3 a 4 nós, garantindo que fica pelo menos um enterrado e outro acima do colo.

Medronheiro

Recolher os frutos quando maduros no final do Outono (bons para comer). Desfazer numa pasta, passar numa peneira com água corrente e deixar secar. Espalhar num tabuleiro e cobrir ligeiramente.

Pilriteiro

Recolher os frutos quando vermelhos no final do Verão. Limpar bem as sementes da polpa em água. Deixar em água 1 a 2 dias antes de semear. Podem demorar até 2 anos a germinar. Também se pode desgastar um pouco o invólucro das sementes, facilitando a penetração da água e consequente despoletar da germinação.

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Textos de João Gomes [jpengomes@gmail.com]
Ilustrações de Huma


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