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In memoriam


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I

O historiador Carlos Alberto da Fonseca Lopes faleceu em Paris, no dia 9 de Maio de 2017, vítima de uma longa doença contra a qual lutava desde há muitos anos, de forma extremamente discreta, quase secreta e sem nada de patético.

Militante antifascista de orientação marxiana e libertária, conjugando dialecticamente Marx e Bakunine, saiu de Portugal para não participar na ignóbil guerra colonial que a ditadura salazarista entendeu levar a cabo a partir de 1961 nas «suas» colónias do ultramar. Daí, o exílio.

Passou a residir em Paris em 1966, vindo da Holanda e da Bélgica em companhia do poeta anarquista e surrealista António José Forte. Foi nesse ano que encontrei o Carlos da Fonseca e o A. J. Forte, que me foram apresentados por um amigo comum, Francisco Alves (futuro tradutor de Debord), ex-trotskista que as teses situacionistas tinham entretanto convencido, como a mim e ao Carlos.

Estabeleceu-se entre nós uma imediata ligação de amizade. E tendo-se juntado ao grupo, nesse mesmo ano, um outro amigo comum, o Eduardo Vasconcelos Cruz, decidimos criar um «círculo» situacionista português. Houve muitas discussões e preparação de textos, mas, por falta de meios e com o regresso do Forte a Portugal, o nosso «círculo» – a que queríamos chamar Potlatch, num impulso bataillan (de Georges Bataille, que nessa altura líamos paralelamente aos textos de Debord) – acabou por não vir a público. Decidimos então, com o Carlos, juntar-nos ao grupo Pouvoir Ouvrier (PO), dissidente do colectivo Socialisme ou Barbarie (da revista do mesmo nome). PO tinha-se separado de S. ou B. na sequência de sucessivas cisões internas, provocadas pelo tácito abandono da teoria de Marx pelo seu último representante, Cornelius Castoriadis, o qual, paradoxalmente, em nada renunciou ao inicial projecto de revolução das relações sociais capitalistas.

E entretanto adveio o grande acontecimento de Maio-Junho de 1968. Terá este sido o último sobressalto das insurreições proletárias do século XIX e dos primeiros cinquenta anos do século XX, ou o início de um outro modo de atacar os fundamentos do capital? Em todo o caso, com o refluxo deste movimento contestatário e insurreccional, o Carlos voltou ao que então chamávamos a «vida quotidiana», aos acasos de uma vida social alienada ao «consumo de massas» e à execrável necessidade da sobrevivência. Mas a «paz social» continuou a ser perturbada pela turbulência ainda vivaz do movimento subversivo, proliferando múltiplos grupos esquerdistas que pretendiam conservar as «conquistas» culturais, por vezes contraditórias e, portanto, sem a «solução dialéctica» que emergira da Primavera da subversão operária e estudantil.

Juntamente com o Carlos, avaliámos o recuo histórico que não nos ia conduzir aos caminhos da esperada «revolução total». Começou então a era do liberalismo libertário ou do neoliberalismo, com o seu sufocador «democratismo liberal» e a dominação às claras de uma forma do capital, o capital financeiro, que já estava presente, mas que iria assumir enormes dimensões à escala mundial, sobretudo após o desmoronamento dos países ditos «socialistas» e dos movimentos ditos de «libertação» nacional do «Terceiro Mundo», que se tornaram Estados quase tão repressivos como as antigas potências coloniais.

O Carlos estava perfeitamente consciente da viragem contra-revolucionária do capitalismo à escala mundial, após o interlúdio dos «trinta gloriosos», os anos subsequentes ao fim da Segunda Guerra Mundial. Na ausência de uma outra práxis revolucionária assente num movimento social (inexistente), o Carlos retomou as suas investigações universitárias, mas com uma orientação precisa. Inscreveu-se na École Pratique des Hautes Études (posteriormente École des Hautes Études en Sciences Sociales), num seminário intitulado «Geografia do marxismo», animado pelo grande investigador Georges Haupt, historiador do movimento social de inspiração social-democrata (II Internacional) e marxista (posterior à revolução bolchevique e à III Internacional). Haupt era autor de vários livros sobre a II Internacional e o bolchevismo, e sobre as relações da história com o movimento social. Foi sob a sua direcção que o Carlos concluiu os seus diplomas universitários, vendo-se depois colocado como docente na Universidade de Paris VIII (Vincennes-Saint-Denis) em história da civilização portuguesa e como bibliotecário na Sorbonne, no departamento de literatura comparada, então dirigido por Étiemble, grande historiador desta disciplina universitária.

Por ter trabalhado no Instituto de História Social de Amesterdão (durante muito tempo dirigido por Arthur Lehning, incontornável investigador dos movimentos sociais revolucionários, de Buonarroti a Bakunine, e editor das obras completas de Bakunine), Carlos da Fonseca pôde posteriormente dedicar-se à investigação sobre o movimento operário português em arquivos. A este respeito publicou História do Movimento Operário e das Ideias Socialistas em Portugal (4 volumes), além de História do 1º de Maio em Portugal, Integração e Ruptura Operária, A Origem da I Internacional em Lisboa, escritos em português, e Para uma Análise do Movimento Libertário e da Sua História, redigido e publicado em francês. É pena que as obras em português não estejam traduzidas, porque seriam úteis para uma comparação dos diferentes movimentos operários na Europa. Seja como for, Carlos da Fonseca enriqueceu consideravelmente a historiografia do movimento operário, do socialismo e do anarquismo em Portugal e, por consequência, na Europa.

II

Estivemos ligados por uma sólida e longa amizade de quase cinquenta anos. Encontrávamo-nos regularmente, em Paris, em cafés do Quartier Latin, com frequência em companhia de um outro amigo comum, António Garcia, e de Fernando Medeiros, outro companheiro próximo do Carlos. E fazíamos depois «digressões» pelas livrarias, em busca de livros raros ou esgotados. Lembro-me das nossas conversas e discussões sobre os assuntos mais diversos, de literatura, poesia, música, pintura, política, história, filosofia, ou até de antropologia e etnologia. Muitos dos nossos debates andavam à volta do movimento histórico do «comunismo dos conselhos operários», de que nos sentíamos próximos, vilipendiado por Lénine e, mais tarde, pelo movimento operário organizado na época de Estaline e da tragédia histórica da revolução bolchevique, após a destruição do sentido primeiro de uma revolução proletária assente nos sovietes (conselhos) rumo ao comunismo.

Mas as nossas discussões não ficavam por aí, tendo em conta a imensa cultura do Carlos a respeito de uma multitude de assuntos. A poesia estava também no âmago das nossas conversas, porque não concebíamos uma revolução político-social sem uma revolução da linguagem poética, à maneira do dadaísmo durante a revolução dos conselhos operários animada pelos espartaquistas. E apaixonavam-nos igualmente outros poetas para quem a revolução poética não estava subordinada a qualquer poder político, mesmo revolucionário, tais como Rainer Maria Rilke, Georg Trakl, Tristan Tzara, ou, na época do surrealismo, Benjamin Péret. Gostávamos também de outros poetas que abriam horizontes, tais como Saint-John Perse, René Char ou Fernando Pessoa. Em música, lembro-me da sua paixão por Beethoven e por Wagner (o Carlos era um grande conhecedor das óperas deste último). Discutíamos a obra de Marx alvo das derivas ulteriores (a partir de Engels, parcialmente, e sobretudo do leninismo e do estalinismo). O Carlos falava-me das investigações sociológicas decorrentes da análise teórica de Georg Simmel e de Max Weber, que muito influenciaram a obra de György Lukács, História e Consciência de Classe.

Tinha uma admiração muito grande pelo primeiro romantismo alemão, o de Iena, que terminou em 1799, animado pelos irmãos Schlegel e por Novalis, que ele considerava como uma verdadeira revolução literária e cultural, cuja força motriz virá a encontrar-se mais tarde no surrealismo, após 1920. Apreciava também o teatro de Kleist e os românticos ingleses, William Blake, Shelley e Keats. Sem esquecer o seu grande interesse pelo expressionismo como revolta poética e pictural.

Mas não falávamos apenas de arte ou de estética. Ocupava-nos muitíssimo a actualidade, sobretudo o problema do bastardo retorno da instância religiosa, tanto no seio do Islão como do cristianismo, retorno que o irritava profundamente. Disse-me um dia: «Há três livros que não entram em minha casa: Mein Kampf, A Bíblia e o Corão.» Sobre o seu relacionamento com a religião, estamos falados. E bem podemos considerar o Mein Kampf como a Bíblia da contra-revolução total.

Entre nós não havia interditos, nenhum tabu. Por isso, podíamos discutir livremente, por exemplo, as obras de Heidegger ou de Hannah Arendt, sem a elas aderirmos. Não andávamos à procura do nazi por trás das frases de Heidegger, procurávamos compreender o seu sentido e a sua intenção, para as restituirmos numa crítica sem complacências. No doentio clima intelectual francês, feito de processos de intenção, anátemas e condenações sem apelo em nome de um antifascismo sem conteúdo teórico apropriado (bastava que num escrito qualquer surgisse uma referência, por exemplo, a Ernst Jünger, para gritarem logo ao «fascismo»), disse-me um dia o Carlos: «Somos os últimos democratas do espírito.» O que mostra bem a sua rejeição de qualquer sectarismo ou dogmatismo destinado a trancar o pensamento crítico preconizado pelo jovem Marx, segundo o qual todo o pensamento deve passar primeiro pela prova de fogo da razão crítica para ser combatido com pleno conhecimento de causa.

III

Contrariamente às aparências, o Carlos era uma pessoa muito calorosa para com os amigos, embora fosse capaz de uma feroz ironia perante aqueles a quem chamava institucionais «diplomados» da opinião, «filósofos» ao serviço do capital e do poder de Estado, prebendários de toda a espécie. Ao longo da sua vida, furtou-se a qualquer compromisso com a ordem estabelecida, mesmo «democrática». Sob uma aparência fria e distante, era capaz de um grande calor contagioso, como quando contava, no estilo lúdico da narração oral, as suas aventuras e desventuras, por exemplo, com professores ou colegas durante a sua escolaridade em Seia e, depois, já mais adulto, em Santarém, onde, segundo o nosso amigo António Garcia, começou a ler Marx, Lénine e Trótski, mas também Bakunine e outros anarquistas. Evocava às vezes a sua acção no cineclube desta cidade, que foi também o seu centro de actividades culturais e políticas, etapa importante na sua evolução ulterior. Foi lá, provavelmente, que começou por rejeitar o «comunismo» do PCP, sectário e estalinista, apesar da aura que rodeava o partido por força da actividade clandestina contra o salazarismo.

Dotado de uma grande cultura, tanto histórica como literária e filosófica, o Carlos sentiu-se sempre muito próximo dos movimentos poético-políticos revolucionários como o dadaísmo, o surrealismo e a teoria situacionista. Era um espírito dotado de uma grande capacidade de abertura a qualquer forma de subversão, razão pela qual, embora fosse marxiano, tinha uma grande admiração por Bakunine, o eterno subversivo; e manifestava uma total intransigência perante qualquer compromisso, não apenas relativamente à ordem burguesa e capitalista, mas também ao sistema tecnocrático e burocrático. Por ter participado activamente no movimento de Maio-Junho de 68, e depois no seu refluxo, manteve sempre uma grande lucidez a respeito das derivas dos movimentos e partidos políticos de esquerda (comunistas, trotskistas ou outros) que pretendiam mudar o mundo mas que, por múltiplos motivos (sectários, dogmáticos, estruturais, circunstanciais), não o conseguiram. Em vez de criarem por fim a «comunidade humana» (a Gemeinwesen de Marx), arrastaram a humanidade, de mãos dadas com o capitalismo, pelos tortuosos caminhos de uma nova barbárie tecno-burocrática new look, ao mesmo tempo soft e mortífera.

Posso afirmar que o Carlos da Fonseca sonhou até ao fim, mas provavelmente sem ilusões, com o advento da «utopia concreta» preconizada por Ernst Bloch, a utopia de um comunismo anarquista e libertário em que a alteridade da revolta pode sempre ter sentido e razão de ser. Porque nada é garantido eternamente; de sempre, só a revolta. Como declara no fim de um dos seus livros, «nos nossos dias, é libertário quem vive em rebelião.» 1

Texto: Américo Nunes 2
Ilustração: Xico Espada

Notes:

  1. Para uma Análise do Movimento Libertário e da Sua História, Antígona, 1988.

  2. Américo Nunes nasceu em Moçambique. Opositor à ditadura fascista e à guerra colonial, refugiou-se em França em 1961, onde prosseguiu essa luta. Professor e investigador de História, foi docente nas Universidades de Paris VII e Paris VIII entre 1972 e 2004, centrando o seu trabalho nos movimentos sociais e nas utopias da Europa e do México. O seu livro Les Révolutions du Mexique (1ª ed. Flammarion, Paris, 1975), considerado um clássico, foi republicado em 2009, com um importante posfácio do autor e uma reactualização da bibliografia, pela editora parisiense Ab Irato. Edição em português: As Revoluções do México (Perspectiva, São Paulo, 2013). A cineasta Samia Serri dedicou ao percurso deste lutador o filme Americo Nunes, utopiste jusqu’à la fin? (52’, 2011).

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