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Terras do Demo

Terras do Demo


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Chamou-lhe Aquilino Ribeiro “Terras do Demo” às serranias beirãs onde nasceu a sua escrita, aquela que não poderemos prescindir se alguma vez quisermos entender o primitivo sentido das gentes na sua relação com a natureza. São do Demo por serem “onde nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização”. Pelas serranias as gentes não temem o Demo, porque a dureza do lugar e da vida erguiam no início do séc. XX, sem enjeitar a miséria imposta, essa dignidade que nada tem a ver com o que representava para o escritor o cúmulo da miséria moral: «ser um cão tinhoso da plebe, curvar-se perante o rei, beijar o anel do bispo, segurar a espada do nobre e mesmo assim ter medo do inferno».

Tomou-lhes parte do nome das Terras do Demo o concelho de Moimenta da Beira, Viseu, onde lançamos a proposta de três percursos pedestres, disponível no site da autarquia, e aos quais não precisamos, está visto, tanto do roteiro ou de GPS, mas sim dos livros de Aquilino. A sua Casa-Museu está no Lugar de Soutosa e por aí passa a Rota do Paiva (21 km) com início em Segões. Pelo vale do rio Paiva o mundo rural emerge entre matas de carvalhos, castanheiros, amieiros, teixos ou pinheiros, que fustigados pelos incêndios dão lugar aos rasteiros arbustos dos planaltos. O Paiva é ladeado pela Serra da Lapa e pelo Planalto da Nave/Serra de Leomil, onde se desenvolve a Rota da Serra (26,5 km) marcada pelas panorâmicas e pelos segredos recônditos nas fragas de granito e nos sepulcros megalíticos, as Orcas. São caminhos afinal por onde andam faunos pelos bosques. Já a Rota do Távora (17 km) começa no Parque de Campismo da Barragem do Vilar. Obra do engenho de Estado que Aquilino Ribeiro não chegou a ver galgar os hortejos e margens do rio Távora, alterando a paisagem que sempre conhecera. Morreu em 1963, dois anos antes da inauguração da barragem. Em seu redor, por entre as povoações de Vilar, Vide e Rua estendem-se pomares de macieiras, vinhedos, olivais e aveleiras.

Nestas paisagens marcadas pelos muros de divisão de propriedade, esse não é motivo para não encontramos ainda sinais vivos do comunitarismo. Esse pulsar popular sempre presente no afecto do escritor. Nas vindimas da região vinícola Távora-Varosa, ou simplesmente da marca “Terras do Demo”, tal como acontecia um pouco por toda a região centro-norte, deparamo-nos com as vindimas comunitárias e a ajuda mútua.

Nas vindimas de Setembro passado nas aldeias dos Prados, freguesia de Rua, juntaram-se uma vez mais cerca de 50 vizinhos para, ao longo de duas semanas, vindimarem entre a cantoria e os mata-bichos que cada vinha faz questão de ter em abundância. No final, depois de todos aí “andarem à cão” ou seja voluntária e solidariamente, é celebrado o esforço comunitário em regada festa e um porco de comensal vizinhança.

Uma outra explicação é possível para se chamarem estas serranias Terras do Demo, que não a partir do latim demoníaco de daemon. Talvez derivem antes do grego primitivo de daímon, génio natural bom ou mau, tal qual as gentes e os lugares; ou talvez mais acertadamente, Terras do grego dêmos, que exprime a noção de povo. O povo que encontramos na vindima comunitária e não o povo suspenso nos credos da demo cracia, pelo qual o elemento grego de composição krátos exprime a noção de governo e poder.

Por isso tudo, percorrer a paisagem das Terras do Demo, demorar-nos na leitura de Aquilino e quem sabe saborear o vinho colhido em conjunto pode trazer consigo um outro sabor da terra e… do Demo.

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Filipe Nunes

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