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Júlio Carrapato, Um Anarquista Original

Júlio Carrapato, Um Anarquista Original


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“Sejamos optimistas, deixemos o pessimismo para melhores tempos!”
Júlio Carrapato


Recentemente faleceu em Faro o anarquista e editor Júlio Carrapato (1947-2016). Já há vários anos vinha enfrentando problemas sérios de saúde, o que não o impediu de em 2011 ter escrito mais um dos seus polémicos livros “O Regicídio, o 5 de Outubro de 1910, a I República Portuguesa e a Intervenção Anarquista” que apresentou na Letra Livre. Nessa ocasião manifestei a minha opinião de que o Júlio era um dos anarquistas mais capazes, quer pelo seu conhecimento e cultura, quer pela qualidade da sua escrita, de expressar um pensamento libertário actualizado e combativo em Portugal.

Nunca cheguei a ser uma pessoa próxima desse anarquista algarvio que conheci no final dos anos 70 em Faro, na livraria que manteve durante um curto espaço de tempo. A partir daí mantivemos uma relação cordial, até porque foi selada com uns opíparos almoços em tabernas que só ele sabia encontrar no Algarve já então contaminado pela peste turística. Um dos resultados dessa cumplicidade estabelecida foi a edição do seu livro «Uma Campanha de Salubridade ou Uma Crítica da Ideologia do Conformismo» que fizemos na editora Centelha de Coimbra. Como tantos outros, fui também um divulgador do jornal Meridional e das suas edições «Sotavento». O tempo passou e devido aos acidentes de percurso ficamos afastados, o que nunca nos impediu de manter, apesar de tudo, uma relação de afinidade que passava também pela divulgação dos seus livros na Letra Livre.

Júlio Carrapato era um tipo diferente de anarquista, culto e bem humorado, bom garfo, fumador e bebedor inveterado (à revelia de uma tradição puritana e higienista do anarquismo do começo do século XX que hoje reaparece num certo naturismo). Juntava a isso ser um conversador incansável e um dos poucos libertários portugueses com recursos literários para enfrentar uma polémica que não nos entediasse ou afogasse em fel e vómitos. Armando Veiga, que também o conheceu bem, num interessante trabalho académico filiou esse seu talento nos grandes escritores do século XIX, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, que principalmente nas «Farpas», usavam o humor e a ironia para criticar a sociedade e os costumes portugueses.

Júlio fez parte dessa primeira geração de anarquistas portugueses que surgiram na fase de agonia da ditadura, no exílio, quase sem relações com o movimento histórico da I República. Tal como João Freire, José Maria Carvalho Ferreira, Júlio Henriques, Jorge Valadas, Gabriel Morato, António Mota, Eduardo Pereira, Rui Vaz de Carvalho, além de alguns outros, aproximou-se das ideias libertárias em França, após ter estado envolvido em actividades anti-fascistas em Portugal, no movimento associativo universitário e com ligações à Luar, a que não foi estranho o facto do seu pai ser também um activo opositor à ditadura salazarista. Os caminhos desse grupo geracional foram todos diferentes, tendo alguns passado por grupos marxistas críticos e pelo situacionismo enquanto outros tinham uma alergia visceral ao marxismo, como foi o caso de Júlio Carrapato. Por isso mesmo publicou na sua editora Sotavento o histórico relatório anti-estalinista do XX Congresso do PCUS, além dos «Diálogos Imaginários entre Marx e Bakunine», «Comunismo e Burocracia» e o seu polémico «Resposta de Um Anarquista aos Últimos Moicanos do Marxismo e do Leninismo, assim como aos inúmeros Pintainhos da Democracia» e, mais tarde, «Democracia ou Anarquismo», o debate entre Saverio Merlino e Errico Malatesta.

Do anarquismo tinha uma visão sem rótulos. Apesar de se manter próximo do grupo Acção Directa e da defesa do anarco-sindicalismo, o seu percurso pessoal, e a sua personalidade, certamente apontariam para uma maior identidade com o individualismo anarquista, pois não deixava de ter uma afinidade especial com a rebeldia solitária que frequentemente evocava nos seus escritos. Não foi por acaso que traduziu, e editou, o «Ladrão» de Georges Darien. Mas esse seu individualismo muito particular nunca impediu a continuidade da relação de afinidade com os seus companheiros estabelecida nos anos quentes do pós-25 de Abril.

Será, no entanto, difícil encontrar nele uma real ortodoxia fanática, rondando a cegueira religiosa, que algumas vezes descobrimos, com surpresa, em alguns meios anarquistas. Se soubermos ver para lá do seu discurso cheio de convicção enfática, a sua ironia e personalidade cordial não lhe permitiam o culto religioso de ideias, mesmo quando, algumas vezes, se enredou em polémicas guiando-se, como todos nós, por simpatias e antipatias tantas vezes inexplicáveis. No seu anarquismo sem adjectivos cabiam Stirner e os ladrões, Durruti e a Revolução Espanhola, ou não fosse ele o tradutor do «Povo em Armas» de Abel Paz, até o «Do Anarquismo» pós-moderno de Nicolas Walter. Se mais não editou, e apesar de tudo muito editou ele a partir do seu exílio no Algarve, foi porque a sua preguiça, ou arte de bem viver, e a falta de dinheiro, não lhe permitiram.

Quando começou a sua aventura no Meridional, no pós-25 de Abril, nos anos de 1978-1979, depois de ter deixado o ensino universitário e Évora, fundando o único jornal regionalista anarquista feito por um homem só, onde já fazia a crítica do turismo predatório, criou um estilo único de polemista anarquista demolidor, mas sempre com ironia ou sarcasmo. Uma publicação assim, em Portugal, estava condenada a uma morte precoce, foi o que aconteceu, mas deixou marcas. Nesse período, jornais anarquistas, como A Batalha e a Voz Anarquista, tinham reaparecido graças à vontade de velhos e experientes militantes e reuniam principalmente colaborações, generosas e bem intencionadas, dos militantes sobreviventes da I República, que retomavam, quase sem diferenças, o discurso interrompido pela ditadura quatro décadas antes. No entanto, a ditadura salazarista tinha arrasado com a CGT e o movimento anarquista, o PCP tinha-se consolidado na clandestinidade e a derrota da Revolução Libertária em Espanha tinha fragmentado o mais criativo e poderoso movimento anarquista da Europa. O mundo era já outro. É certo que se publicavam também inúmeras revistas, quase fanzines, juvenis que eram aventuras efémeras com maior ou menor criatividade. Destas publicações surgidas com a derrubada da ditadura destacava-se a revista A Ideia, aberta às novas realidades do pós Maio de 68, e que começava a se consolidar como porta-voz de um novo anarquismo (estou a falar desses primeiros anos) mas sem conseguir ultrapassar, na forma e no conteúdo, um discurso ideológico ainda convencional a rondar o pedagógico. Nesse panorama eram a Acção Directa, na sua primeira fase, e o Meridional que se distinguiam pelo carácter polémico e pela radicalidade dos escritos que publicavam. Nos dois casos penso que se manifestava o estilo de Júlio Carrapato. Foi a partir dos textos publicados no Meridional que se editou o seu livro «Uma Campanha de Salubridade», para que não se perdessem quando o jornal desapareceu.

Na ressaca da normalização democrática, a Sotavento foi perdendo algum fôlego, dedicando-se o Júlio à edição de monografias locais e temas regionais, na Algarve em Foco,  que era também uma forma deste internacionalista declarar o seu amor ao Algarve natal além de uma forma de sustentar as suas actividades editoriais mais militantes.  Mas em momentos chave como o das festividades dos chamados descobrimentos ibéricos, lá estava o Júlio Carrapato com «Os Descobrimentos Portugueses e Espanhóis ou a Outra Versão de uma História Mal Contada». Reuniu também as suas numerosas crónicas avulsas em dois livros «Crónicas de Escárnio e Boa Disposição» e «Novas Crónicas Bem Dispostas». Nos últimos anos regressou à escrita, e edição, com: «O 5 de Outubro, o Regicídio, a I República», «Subsídios para a Reposição da Verdade sobre a Guerra Civil de Espanha», «Para uma Crítica Libertária do Direito seguido de A Lei e a Autoridade». Podem dizer alguns que são textos panfletários, e de facto não deixam de o ser assumidamente como a «Resposta Bem Humorada ao Professor Doutor João Freire» ou «Uma História de Figurões e Figurantes», contra Álvaro Cunhal, mas foram escritos por alguém que sabia bem do que falava e não tinha a pretensão de um estilo académico inócuo e insípido. Pelo contrário, através da crítica cáustica buscava derrubar tabus e desmontar os discursos dominantes.

Lamento que com a sua cultura, a que juntava uma formação em ciência política feita em França, além de um inquestionável talento literário, que já se manifestava nos anos 60 quando escrevia poesia, não tivesse enfrentado a necessidade de uma reflexão original sobre o anarquismo da nossa época. De certa forma o Júlio Carrapato ficou até ao fim imbuído de um imaginário heróico dos primórdios do anarquismo, dos grandes teóricos do século XIX, da AIT e da Comuna de Paris, e do seu apogeu anarco-sindicalista na Revolução Espanhola e para o bem, e para o mal, não se distanciava criticamente desse passado para enfrentar os problemas do anarquismo e dos movimentos libertários na nossa época, dos filhos das derrotas revolucionárias do século XX. Era avesso, não sem razão, a todo o revisionismo e reformismo, mas o antídoto só o encontrava nos clássicos do pensamento anarquista.
Mas mesmo que assim fosse, e a minha opinião vale o que vale, dele ninguém esperava a sua conversão, a exemplo de outros anarquistas e radicais dos anos 60/70, que ele desprezava, a esta ordem social capitalista reinante. Este rebelde e livre-pensador cordial, viveria, viveu, sempre fora do rebanho. Viveu, e morreu, como homem livre, como anarquista. Dele podíamos dizer o que ele disse de Georges Darien:
 “Homem lúcido e requintado, podia apreciar o ondular das inúmeras cabeças pensantes e semoventes da Hidra de Lerna, mas não a sua antítese: o martelar monótono das cem mil patas sem vida autónoma da centopeia societária.”

M. Ricardo de Sousa

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One Person Reply to “Júlio Carrapato, Um Anarquista Original”

  1. Desculpem este comentário tão tardio em relação à data do artigo. Só agora é que reparei através do facebook de um companheiro brasileiro. A frase lá em cima “sejamos optimistas…” não é da autoria do Júlio Carrapato, mas sim do anarquista italiano Amedeo Bertolo falecido em Novembro de 2016. Abraços


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