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O regresso da Beleza

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Paris, uma multidão ensopada de chuva, recebe tímidos e intermitentes raios de sol como um espectáculo interrompido por lacrimogéneo e cassetetes, mas o movimento social voltou e a beleza saiu à rua.

regresso da belezaTexto de: Pedro Fidalgo

Fartas das burocracias sindicais que travam a espontaneidade, diversas iniciativas brotam por toda a parte. Por um lado, renasce das cinzas um black block massivo constituído maioritariamente por estudantes do secundário e ligado ao movimento autónomo MILI(1) que anseia por essa famosa insurreição que parece nunca mais vir, por outro lado, em torno da promoção do documentário “Obrigado, patrão!» realizado por François Ruffin, um grupo de militantes de esquerda, reunido.a.s uma noite na Bolsa do Trabalho, lançam a ideia de uma «Convergência de lutas» e decidem apelar a passar uma “Noite Em Pé” na Praça da República, projectando o filme e dando origem a essa salganhada de gente a quem chamam Nuit Debout. Não se sabe muito bem o que é nem para onde vai, pois, por um lado, opõe-se à reforma laboral proposta pelo governo, por outro, fala em mudar a Constituição sem muito sair da Praça da República (que agora se chama “Praça da Comuna”), lugar-palco de alguma mediatização e, por sua vez, de repressão policial, nomeadamente durante a noite. É verdade que o espírito primaveril pegou por todo o país e a ocupação de praças alargou-se, mas por enquanto não passa de uma Geração à Rasca ou de uma acampada na Praça do Sol. Parece que todos.a.s falam de política, mesmo o.a.s mais acanhado.a.s ou aquele.a.s que não sabem se são de direita ou de esquerda, mesmo “apolíticos”, todo.a.s têm uma opinião a dar. Cabe perguntar em que contexto surge esta indignação, porque não transborda para o mundo empresarial e porque não floresce a greve geral na terra da Comuna e do Maio de 68?

Esta convergência de lutas contra a reforma laboral El-Komri, que visa precarizar os contratos profissionais, facilitar despedimentos e modificar o Código do Trabalho, desabrocha em pleno Estado de Urgência(2), fruto imediato dos atentados que, por sua vez, são a resposta do Estado Islâmico aos bombardeamentos imperialistas da França no Médio Oriente. A grande autoridade patronal frui com esta posição de medo, controlo e insegurança, para se atacar aos direitos dos trabalhadores. As suas intenções não deixam espaço para dúvidas. Os tempos radicalizaram-se. Em terras gaulesas a política neoliberal radicalizou-se, como em toda a Europa. Os seus representantes dizem querer «combater a radicalização dos jovens», mas as medidas que têm adoptado contradizem o processo. As intervenções militares na Síria e a ameaça terrorista justificam um apelo recorrente a recrutas para a tropa e para a polícia que se vê armada por toda a parte. Fala-se dos jovens, pois é deles que raia o movimento, mas basta passarmos na Nuit Debout para encontrar todas as gerações, nomeadamente alguns “soixante-huitards”(3).

Recordando esse famoso mês de Maio de 1968 em que todos tinham vontade de falar, encontram-se similitudes com o movimento actual na “Praça da Comuna”, o que explica o facto de a França, que há alguns meses chorava atentados e que todos diziam ter virado à extrema-direita em 2017, acorda e descobre «que toda a gente detesta a polícia»(4). Um dos fenómenos que levou à tomada de consciência por parte dos estudantes e dos jovens operários em 1968 foi conhecer a face repressiva do Estado quando a polícia entrou no pátio da Sorbonne na segunda-feira, 3 de Maio, repressão essa que levou a violentos confrontos durante sete dias consecutivos por todo o Bairro Latino, até ao erguer de barricadas que acabaram por ser tomadas de assalto pelas forças de ordem. Em Tolbiac, a 17 de Março de 2016, um fenómeno semelhante se reproduz. Três assembleias gerais estão previstas na universidade de Tolbiac no mesmo dia. De manhã, uma de estudantes, à tarde, uma assembleia da coordenação universitária e, por fim, às 18h, uma assembleia destinada a inter-lutas com pessoas de outros sectores profissionais. Mas ao chegarem, os convidados deparam-se com o portão fechado e um aparelho policial sem precedentes. Para aceder ao anfiteatro têm de passar pelo parque de estacionamento. Na euforia, os estudantes escrevem nos muros palavras como «ocupação» ou «comecemos o começo», mas rapidamente a polícia entra e os estudantes tentam barricar-se, bloquear a entrada à polícia que gazeia e bate. Jornalistas e outras pessoas à entrada da universidade captam imagens dos estudantes a levar porrada da polícia que não hesita em utilizar cassetetes telescópicos, flashballs e lacrimogéneo. Observam-se estudantes em sangue e algemados, alguns são levados à esquadra. Toda e qualquer tentativa de organizações não oficiais é reprimida.

Assim sendo, o MILI começa a convocar assembleias fora do programa sindical e a mobilizar acções de forma ilegal. É desta forma que rapidamente se consegue ultrapassar os sindicatos em termos de mobilização na rua. Vários pontos de encontro passam a ser recorrentes para manifestações selvagens, ao mesmo tempo que na Nuit Debout ninguém quer falar de partidos políticos, mesmo que por detrás, pela própria organização, haja uma tentativa de recuperação de alguns partidos à esquerda do PS. A novidade no movimento é o aparecimento de figuras activas, como o economista Frederic Lordon, que aparece na praça pública com um discurso “cidadanista” e contra o mundo da finança. O discurso e o tom orador lembram os radicais de esquerda tais como Varoufakis ou Pablo Iglesias, será esse o caminho do movimento? A questão coloca-se, pois à parte uma minoria de agitadores ditos “violentos”, íntegros no movimento autónomo e que não receiam a polícia, a maior parte do movimento Nuit Debout funciona com a legalidade da Câmara Municipal e respeita os horários autorizados pela ocupação. Prova disso foi o Comissário da Polícia ter agradecido publicamente e felicitado a boa organização de Nuit Debout que tem um serviço de ordem próprio para vigiar e evitar possíveis agressões e distúrbios que, como é óbvio, com um dispositivo policial de centenas de efectivos por toda a cidade, acabam por suceder, pois todo.a.s estão farto.a.s do Estado de Urgência e policial.

Além das famosas assembleias populares de ocupação das praças públicas, a questão do mundo do trabalho e da greve urge. Dos sindicatos pouco se ouve falar, tão ocupados que estão a negociar nos gabinetes. No entanto, vários representantes sindicalistas já tiveram de se confrontar com a mesma repressão devido à entrada da polícia nalguns locais de trabalho onde os assalariados reuniam durante a greve, como foi o caso dos Correios de Nanterre, onde trabalhadores do sindicato SUD convidaram estudantes do sindicato equivalente a convergir, mas a direcção dos Correios chamou a polícia para expulsar os “intrusos”. Ou, por exemplo, a sede do sindicato anarco-sindicalista CNT de Lille, onde a polícia arrombou a porta e quebrou material para prender sindicalistas que voltavam de uma manifestação.

Por outro lado, várias acções e propostas de organização têm aparecido da parte dos intermitentes, precários e desempregados que não têm possibilidade de se sindicalizar ou mobilizar no seio de qualquer empresa. Assim surgiram Comités de Acção com o objectivo de apoiar a greve do McDonald’s, com bloqueios a vários restaurantes fast food, ocupação de gares ou ainda interrupção de espectáculos como no Teatro de Odéon. Na maior parte dos casos, acções sempre reprimidas de forma violenta.

O movimento pode alargar-se durante o lindo mês de Maio, muito.a.s anseiam por isso, mas sem os sindicatos na revolta e com a pacificação da Nuit Debout que ainda não se definiu em relação à subversão necessária, violenta ou não, para com o grande patronato e suas milícias de robocops, nenhuma greve pontual, bloqueio ou sabotagem será suficientemente forte para recusar esta lei e o mundo em que se inscreve.

No dia 7 de Abril houve sete manifestações num espaço de 17 horas só em Paris, a maioria delas selvagens e uma até chegou a libertar uma dezena de estudantes da esquadra fazendo pressão sobre a polícia. O movimento embelezou as ruas, de forma horizontal e autónoma, os estudantes encabeçaram várias manifestações contrariando o serviço de ordem da CGT, algumas esquadras da polícia foram atacadas por estudantes do secundário e até houve supermercados pilhados para oferecer comida aos sem-abrigo e refugiados. A esta beleza só lhe falta um sentido capaz de durar para além do possível, pois nunca será suficiente face ao mundo feio a que nos habituaram.

Notas:

(1) Movimento Inter Lutas Independente é um colectivo nascido no meio estudantil (liceus) em 2013, distingue-se dos tradicionais sindicatos ou partidos políticos pelo seu funcionamento autónomo e formas de acção que rejeitam a hierarquia e todo e qualquer programa político pré-estabelecido. Tendo-se alargado ao meio universitário e não só, o MILI reagrupa diferentes pessoas com uma sensibilidade comum que evolui com base no consenso. Para além da teoria, este movimento autónomo privilegia acções dinâmicas e directas contra o capitalismo.

(2) Consultar Mapa número 12.

(3) Expressão usada para definir alguém que participou na contestação do Maio de 68.

(4) «Et tout le monde déteste la police», grito consensual de uma grande parte dos manifestantes desde o início do movimento, contrariando a ideia de que a polícia existe para nos proteger (como foi dito depois da captura dos terroristas contra Charlie Hebdo) e relembrando a morte do ecologista e pacifista Remi Fraisse em Outubro de 2014 numa manifestação contra a construção da barragem em Sivens.

 

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