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Montanhas do Gerês

Montanhas do Gerês


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Na descoberta da natureza e da memória das resistências por entre propostas de percursos pedestres. Ao salto dos montes: Montanhas do Gerês.

geres2“Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. (…) A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa.” Dizia-o Miguel Torga no que podia ser um prefácio a esta rubrica do Salta Montes.

A “voz do Chão” deste “poeta rebelde de nascença, sem nome possível numa ficha partidária”, cedo afirmou: “É o espírito da terra que eu defendo” 1 . Mas a terra, não como simples paisagem primitiva, mas como o lugar recíproco onde as suas gentes, e a condição humana, ganham sentido. Esta nossa proposta de trilhos pedestres fê-la antes Adolfo Correia da Rocha (1907-1995), que escolheu o pseudónimo de Miguel Torga, tomando o nome à planta brava das montanhas do Gerês, que lança as suas raízes fortes sob a aridez da rocha, com um caule incrivelmente rectilíneo. Assim foi a vida de Torga que declarava: “há em mim uma raiz anarquista que me não deixa tolerar o poder. Sou contra ele porque degrada tudo: quem o exerce e quem o suporta”.

A autarquia de Terras de Bouro dedicou-lhe uma rede de 9 percursos pedestres 2, inspirada em passagens do seu famoso Diário, somando-se aos trilhos já existentes do Parque Nacional da Peneda-Gerês 3. Aqui sugerimos, em Terras de Bouro, o “Trilho dos Currais” (10km/4h) a começar no Parque de Campismo do Vidoeiro, junto à Vila do Gerês; e a começar em Castro Laboreiro (Melgaço), o “Trilho Castrejo” (17km/9h). A razão desta sugestão, não é somente o desfrutar dos bosques serranos e dos aspectos únicos da fauna e flora, mas o contacto com as “tradições comunitárias” das montanhas. Apreender de como resultaram estas do saber escutar dos Homens o ritmo da Natureza.

aldeia-castro-laboreiroPercorrendo Castro Laboreiro, a transumância pastorícia dera corpo a um tipo de povoamento daqui característico: as Brandas e Inverneiras. Lugares habitacionais temporários que surgem da relação directa na garantia de alimentos, o que na linguagem de hoje encaixaria nas temáticas da “soberania alimentar”. A Inverneira, em tempos frios, acolhe as famílias nos vales, subindo na primavera para a Branda, onde se fazem as sementeiras e onde se passa a maior parte do ano. O Trilho dos Currais, ao longo de três currais do Baldio de Vilar da Veiga: o Curral da Espinheira, o Curral da Carvalha das Éguas e o Curral da Lomba do Vidoeiro, leva-nos a conhecer o espírito e tradições comunitárias locais, a partir da organização silvo-pastoril na forma de vezeira. Uma prática comunitária, de Maio a Setembro, em que o gado bovino da comunidade sobe aos currais da serra alta. Os vezeiros acompanham o gado, na medida dos dias e número de cabeças que possuem, e no dia dos cubais, são limpos os caminhos e arranjadas as cabanas comunitárias e as fontes.

Nestas caminhadas, talvez possamos compreender as palavras de Miguel Torga, em Coimbra a 1 de Junho de 1974:

fonte_geres«Profundamente enraizado no chão nativo, e orgulhosamente fiel à condição da origem, sempre a lição dos livros, a dialéctica dos teóricos e a eloquência dos tribunos pesaram muito menos no meu critério do que a sabedoria ancestral do comunitarismo agrário e pastoril que me corre nas veias: as fontes de riqueza e os bens de utilidade – os baldios, as lameiras do feno, as águas de regadio, o boi de castiçagem e o forno do pão –, propriedade de todos, a vezeira do gado a rodar de casa em casa, a entreajuda pressuposta nas horas más dum incêndio ou nas boas duma sementeira, as regalias e obrigações de vizinho tidas como a mais rica das fortunas e o mais grato dos comportamentos. Não confundo, evidentemente, as modestas formas de esforço recíproco, que asseguram a subsistência de uma sociedade arcaica, com a complexidade das relações de produção, distribuição e consumo da sociedade actual. E sei, consequentemente, que comprimento deve ter o salto mental que transponha o abismo que vai da noção de uma tenda aldeã à compreensão dum supermercado. Mas como pode acontecer que, por excesso de abstracção, no advento da justiça social, que tanto desejo, a integridade da natureza humana seja sacrificada à eficácia, alarmado no mais íntimo do ser, fortaleço-me no vigor intrínseco dessa evidência que trago plasmada no sangue: as leis da existência gregária emanadas do lúcido jogo das necessidades, da correspondência afectiva e do soberano conselho do povo. Povo que nunca pude, sem corar de vergonha, ver utilizado como pretexto demagógico ou reduzido a uma versão artificial de consciências alienadas, porque sinto a sua realidade timbrada na carne e no espírito como uma tatuagem indelével e dignificadora» 4.

Filipe Nunes

Notes:

  1. http://goo.gl/kSyBTD
  2. http://goo.gl/Jk5b1i
  3. http://goo.gl/i6jU8R
  4. Miguel Torga: “Fogo Preso”, Coimbra, 1976

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