Serra do Caldeirão

9 de Julho de 2014
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Entre o Baixo Alentejo e o Algarve há um território que não leva nome. Quem aí vive ora anuncia que vai ao Algarve, ora fala que foi ali às terras Alentejanas. Onde vive é simplesmente na Serra. A serra do Caldeirão é um mundo à parte.

 

A proposta de percursos pedestres tem a Ribeira do Vascão como eixo central. Sítio reconhecido na Rede Natura 2000, a ribeira aí nasce para vir desaguar no Guadiana, por entre um ondulado de cerros e corgos onde o abandono dos tempos humanos é testemunhado na paisagem por densos matos de sobreirais, azinhais e medronhais. Pelas margens de águas límpidas do Vascão, loendros, tamujos, freixos e salgueiros convidam à sombra, envoltos pelo cheiro das estevas nas vertentes xistosas da serra.

Tomemos como ponto de partida o Ameixial (Loulé) de onde partem vários percursos marcados (disponíveis na página web do município) e iniciemos o Percurso de Revezes, a partir desse pequeno lugar e pelos montes do Brejo e Vale da Moita. 12 km por entre a serrania, que se cruza no Moinho da Cascalheira (onde o Vascão convida a banhos) com outra proposta de percurso (5km), desta feita na margem de Almodôvar (não marcado e indicado no Guia do Concelho de Almodôvar – Território da Antiga Escrita do Sudoeste, CMA/Naturterra) que nos leva ao Monte Branco do Vascão, nas cercanias da aldeia de Santa Cruz.

Por entre a natureza destes lugares ecoam as histórias das guerrilhas. Há 200 anos atrás, o Remexido: herói romantizado que liderou a Sul, entre 1832 e 1838, a guerrilha conservadora miguelista, e que para lá da rendição política, permaneceu com os seus homens como guerrilheiro errante nestas montanhas até aí acabar fuzilado. Perpetuando para sempre o rastro de temerosos bandoleiros que ainda pressentimos no caminhar pela serra, fugidio entre as veredas e os matos intransitáveis. Entendemos afinal porque é que durante tantos anos umas poucas centenas de homens puderam fazer frente aos exércitos liberais, que sabiam não ser “possível acabar a guerrilha porque os moradores da serra são guerrilhas”. Como refere o Guia de Almodôvar: “as razões desse apoio residem no conflito gerado entre os antigos lavradores e os camponeses rendeiros, receosos da emergente burguesia comercial e maçónica, que do litoral algarvio estendiam as mãos à posse fundiária de baldios e de terras; mas sobretudo, do desespero da crescente massa de assalariados rurais e gente sem eira nem beira, que engrossavam a mendicidade, numa altura de profunda transformação da sociedade. (…) Aqui mais do que em nenhum outro lugar, a geografia física da serra e humana dos montanheiros, representou resistências, adversidades e solidariedades”

 Filipe Nunes
filipenunes@jornalmapa.pt

 

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