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Reflexões depois do despejo da corrala utopía

Reflexões depois do despejo da corrala utopía


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CORRALA.UTOPIA

 

A Luta pelo Direito à Habitação em Sevilha tem uma larga trajectória, mas foi nos últimos dois anos que teve um aumento especial. A 17 de Maio de 2012, um edifício vazio foi ocupado por várias famílias, a Corrala la Utopía, não tendo sido um acto isolado já que por todos os bairros da cidade estavam-se a organizar Pontos de Habitação e Encontro (PIVES), onde, através das assembleias, era dado aconselhamento às famílias, com o colectivo a mobilizar-se na procura de soluções para a necessidade de habitação, para os despejos, para denunciar as situações de abusos, para prestar apoio emocional, etc. Em paralelo nasceu o Movimiento Andaluz por el Derecho a la Vivienda; necessitávamos unir forças a nível andaluz, já que a necessidade e as situações de precariedade eram as mesmas. Este movimento, que na Andaluzia caracterizou-se, entre outros aspectos, por unificar a luta de todo/as o/as afectado/as por despejos, quer fossem inquilinos, hipotecados ou pessoas que ocupavam. Assim, no seu seio, coordenam-se diversas assembleias de bairro, grupos de STOP DESAHUCIOS, da PAH (Plataforma Afectados por la Hipoteca) e outros colectivos de base. Poderíamos, para precisar, definir duas linhas de trabalho através das quais este movimento se desenvolveu desde há mais de 2 anos. Uma mais de acção directa, com bloqueios de vizinho/as para evitar os despejos e pressionar o/as proprietário/as, bancos e imobiliárias; assim como as ocupações colectivas de edifícios quer fossem de entidades financeiras como públicas. E a outra legalista, mais de mobilização e de campanhas coordenadas de reivindicação face às administrações, exigindo mudanças concretas na política da habitação, incluindo a luz e a água, de modo a travar a dinâmica de despejos que deixaram milhares de pessoas sem tecto e um número difícil de quantificar de suicídios.

Tudo isto fez com que à Corrala la Utopía tivesse o sucesso que teve, pois ficava demonstrado que a força e a unidade de todo/as podia fazer com que se ocupasse um edifício vazio, propriedade da banca, demonstrando assim como a especulação e a usura dos bancos era combatida através da desobediência civil e da auto-organização das famílias. Foram várias as ocupações colectivas (corralas) que continuaram a dar-se tanto em Sevilha como pela sua província, assim como pelo resto da Andaluzia. Desta forma, pôs-se em cheque o governo andaluz (PSOE-IU) [coligação entre o Partido Socialista Obrero Español e a  Izquierda Unida], em especial o Departamento da Habitação e Obras Públicas (IU), que não fez mais que seguir os passos que já tinham sidos dados pelos movimentos sociais, criando nas suas delegações centros de aconselhamento para as famílias, enfatizando e apoiando as mobilizações, já que não tinha nada com que contribuir.

No passado domingo, 6 de Abril, executando uma ordem do tribunal, um dispositivo policial de umas 20 carrinhas de anti-distúrbios procederam ao despejo das 22 famílias que viviam desde há 2 anos na Corrala Utopía, para devolver o edifício ao seu proprietário legal, o banco IBERCAJA. O despejo que se  deu de forma “pacífica” (eufemismo mediático se não há feridos graves) ao apanhar de surpresa o/as ocupantes, decorreu com uma calma tensa que não evitou que a polícia nacional detivesse durante a manhã 2 companheiros por protestar na rua contra o despejo, com as habituais acusações de atentado à autoridade, resistência, etc….

Os partidos políticos de esquerda e direita, a partir das administrações públicas e dos mass media, passam a partir desse momento a protagonizar definitivamente os últimos compassos do melodrama sobre as consequências da crise que, em torno desta emblemática ocupação, iam tecendo desde há algum tempo. Reprovações mútuas entre administrações, demagogia política sobretudo da Izquierda Unida e um assistencialismo deficiente aos/às despejado/as, pois apenas uma parte foi realojada em apartamentos públicos, obscurecem a origem das corralas, do movimento de luta que as engendrou e quais são as reivindicações que hoje em dia seguem de pé.

O resultado foi díspar e faria falta uma análise mais profunda das causas, o que agora mesmo pode ser precipitado. De qualquer forma, é evidente o cansaço e a necessidade de reflexão. A linha da acção directa acarreta um desgaste repressivo difícil de manter, pois são muitos já os imputados por distintos delitos. A outra pode submergir-te num discurso possibilista, onde os partidos jogam com vantagem, perdendo-te num labirinto de leis. Em qualquer caso, são inegáveis os resultados no caminho percorrido. Por um lado, a luta nos bairros criou experiências colectivas de resistência que permanecem latentes quando não se encontram realmente vivas. Por outro, a mobilização contra as administrações, na Andaluzia contra o governo na Junta do PSOE e da IU, marcou a agenda política sobre a questão da habitação, tomando medidas face à opinião pública e manipulando com os seus meios, como sempre, mas tornando visível o conflito bem mais além do que teriam desejado.

O caminho continua aí, à espera, já que as condições de exploração e alienação às quais nos submetem diariamente continuarão a apelar para que unamos forças para abrir espaços de confrontação e apoio mútuo. Um abraço fraternal desde Sevilha.

Maca e Pablo

 


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Jornal Mapa

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