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Now Reading: Revolução integral: uma entrevista a Enric Duran sobre a CIC

Revolução integral: uma entrevista a Enric Duran sobre a CIC

Revolução integral: uma entrevista a Enric Duran sobre a CIC


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Nesta entrevista, Neal Gorenflo, editor da revista Shareable, Michel Bauwens, da Fundação P2P e John Restakis (especialista internacional em cooperativas) falam com Enric Duran.

[ Traduzido por Júlio Silvestre a partir de cooperativa.cat ]
[ Imagens de Lisa Furness e da Cooperativa Integral Catalã ]

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Nesta entrevista, Neal Gorenflo, editor da revista Shareable, Michel Bauwens, da Fundação P2P e John Restakis (especialista internacional em cooperativas) falam com Enric Duran.

 

enricDuran é um activista anti-capitalista Catalão, conhecido pela sua acção de “desobediência civil finanaceira”. A 17 de Setembro de 2008, anunciou ter conseguido empréstimos bancários no valor de quase meio milhão de Euros e a sua intenção em repartir estes fundos por movimentos sociais anti-capitalistas. O objectivo da acção foi denunciar e lançar o debate sobre os privilégios e as vantagens legais das elites financeiras e o carácter predatório e injusto de um sistema capitalista que “nos está levando aos caos e a crises humanitárias e ecológicas sem precedentes”.

Como consequência, Duran ganhou o apelido de “Robin dos Bancos” e foi acusado de fraude por 16 entidades financeiras, enfrentando longas penas de prisão.  Por não ter comparecido nos julgamentos, vive actualmente na clandestinidade, embora pretenda voltar à vida pública quando existirem as condições adequadas. Apesar da precariedade do seu estatuto legal, não deixou de trabalhar incansávelmente à distância pelo desenvolvimento da Cooperativa Integral Catalã (CIC), uma iniciativa “transnacional e em transição, pela transformação social desde baixo através da autogestão, da auto-organização e do trabalho em rede”. Aqui temos Enric Duran a falar do seu trabalho e da sua vida.

 

INTRODUÇÃO: ENRIC DURAN E A COOPERATIVA INTEGRAL CATALÃ

 

Michel Bauwens: Falemos da tua evolução pessoal, desde as tuas intervenções activistas ao “Robin dos Bosques”, até aos planos constructivos da CIC. Quais são os teus objectivos actuais?

Bom, de facto quando comecei a planear a acção de expropriação dos bancos (2005) já tinha como objectivo principal promover a criação de uma alternativa social baseada na cooperação e na autogestão.  Desde 2002 que tinha idealizado planos para o seu desenvolvimento, e em 2003 fiz a primeira tentativa através do Infoespai. Nessa altura não sabia como apelidariamos essa alternativa de construção, nem que forma teria, mas tinha claro que a acção desobediente tinha que servir para acumular forças em todos os sentidos, para criar algo, como o que agora é a CIC

Em 2006 inspiramo-nos no movimento pelo decrescimento, para gerar esse processo de construção de base. No fim de 2008, esse processo de idealização culminou na solidificação do projecto e do que seria uma cooperativa integral. Finalmente, a CIC foi estabelecida em Maio de 2010.

Actualmente estou totalmente envolvido no desenvolvimento da CIC, e em tentar extender as ideias e as práticas da revolução integral a todo o mundo.

 

Neal Gorenflo: Como mudou a tua consciência face ao resultado da tua famosa acção e toda a atenção pública que se seguiu? O que é que aprendeste e que influência tem isso no que fazes hoje?

A minha consciência foi evoluindo experiência atrás de experiência, desde que em 1998 decidi dedicar a minha vida ao activismo social. A nível pessoal, as repercussões da minha acção  tornaram-me mais responsável e assertivo sobre o que ainda estava para vir. Isso deu-me provávelmente a determinação necessária para fazer tudo o que tinha de ser feito, de maneira a tornar a CIC uma realidade.

Mesmo que nunca tenha sido uma pessoa temerosa ou prudente perante os grandes desafios, o êxito da acção fez-me mais valente perante o que estava para vir.

 

Michel Bauwens: Qual é a tua situação legal e que perspectivas tens para os próximos anos? Que aconteceria à CIC se te encarcerassem?

Actualmente sou declarado foragido pelo Estado Espanhol, por não me ter apresentado ao julgamento em que me sentenciavam 8 anos de prisão. Vivo na clandestinidade desde Fevereiro de 2013. No entanto faço planos para emergir, quando estivermos prontos para assumir os riscos que isso implicará.

Esta situação não teve efeito algum no meu total comprometimento com o processo da CIC, tanto a nivel de coordenação, como nos vários grupos de trabalho e alguns projectos chave.

No entanto, a CIC já está totalmente preparada para continuar sem depender do meu tempo. Existem cerca de duas centenas de pessoas com uma implicação alta no processo da CIC, e caso falte alguém,  pode-se notar, mas ninguém, nem mesmo eu, somos imprescindíveis.

 

PRIMEIRA PARTE: A CIC NO PRESENTE – LOCAL E GLOBALMENTE

 

CIC_ponteMichel Bauwens: Quais são a peculiaridades da abordagem da CIC em termos de modelos de gestão e decisão, e o que queres dizer exactamente por “integral”?

Em castelhano “Integral” significa holística, completa, quer dizer, em todos os âmbitos da vida, que é o significado que nós lhe damos.

O que a CIC pretende é gerar uma sociedade autogestionada e livre, fora das leis e do controlo do estado, e das regras do mercado capitalista.

Nesse sentido, mais do que um modelo de sociedade, é um modelo de transição onde vamos construindo progressivamente práticas e tomando decisões que nos afastem do ponto de partida, dentro do sistema, aproximando-nos do mundo que queremos.

O modelo de decisão inclui assembleias gerais que têm duas formas: uma jornada assembleária por mês, com uma assembleia sobre um tema que queiramos aprofundar para o nosso futuro desenvolvimento,  e a assembleia permanente que funciona com uma agenda aberta, onde quem quiser pode contribuir. Estas são cada quinze dias, uma das quais coincide com a jornada assembleária.

Po outro lado, o nosso modelo de decisão baseia-se na descentralização de toda a organização, tratando de fomentar o empoderamento de todos os núcleos locais para que desenvolvam a sua autogestão integral, ao mesmo tempo que se apoia a autonomia de cada projecto (comunidade, projecto productivo, núcleo de saúde, etc..) para que se auto-organize em assembleia e seja soberano, segundo os principios comuns da CIC.

Em termos de gestão, uma das nossas linhas de acção é a colectivização de recursos. Encorajamos o desenvolvimento de propriedades comuns para toda a CIC que são geridas pela assembleia soberana de cada projecto.

peers1A propriedade privada é uma das maneiras de proteger a propriedade, mas não é a única. Promovemos formas de propriedade comunal e cooperativa que nos parecem reforçar a autogestão e a auto-organização dos individuos, as quais nos dão muita mais força para superar o Estado e o sistema capitalista, do que simplesmente dizermos que defendemos a propriedade privada. Em todo o caso, o tipo de propriedade que defendemos  está relaccionado com o uso, e por isso estamos contra a existência de multiproprietários que se dedicam a enriquecer com contratos de aluguer abusivos, sem terem qualquer interesse no uso das suas terras.

Uma das nossas estratégias contra-económicas é a colectivização de terras através da compra cooperativa ou de doações dos seus proprietários individuais. Para isso usamos  uma “Cooperativa Patrimonial” que não tem qualquer actividade económica, para que o Estado não tenha nenhuma possibilidade de a atacar com multas.

 

John Restakis:  O processo de tomada de decisões, ao incorporar os principios da democracia directa, da descentralização e do igualitarismo, soa pesado e demorado. Quanto tempo duram as assembleias permanentes? Pretendem continuar com esse processo? Tem a participação diminuido ao longo do tempo?

Entre as assembleias permanentes e as mensais dedicadas a um único tema, posso dizer que gastamos à volta de 16 a 20 horas nos grupos grandes, enquanto que nos grupos pequenos é normalmente um pouco mais.

Penso que nos podemos dar por satisfeitos com o nosso processo de tomada de decisões. Tivemos um bom nível de participação ao longo dos anos e a tendência tem sido crescente. Actualmente temos uma média de 50 participantes presênciais por assembleia, enquanto que alguns de nós fazêmo-lo à distância.

Ao mesmo tempo a qualidade dos acordos tem tido grande successo e nunca houve nenhum conflicto de maior em todos estes anos.

Dado que a maioria dos participantes escolhe algum projecto ou área concreta da CIC, o número nas assembleias não cresce tanto como noutros âmbitos da CIC, onde participam alguns milhares de pessoas. Usamos também uma série de ferramentas de comunicação como a rede social ou as listas de correio que permitem a muitas pessoas contribuir nos seus âmbitos de interesse, mesmo que não estejam nas assembleias presênciais.

 

cicMichel Bauwens: Qual é a relação entre a CIC e os seus projectos subsidiários como o Calafou, etc..? Podes descrever a extensão da rede?

Entre individuos e colectivos existem uns 300 projectos productivos, uns 30 nodos locais de eco-redes, uns 15 projectos de vida comunitária, aproximadamente 1700 sócios individuais e colectivos, e como disse antes, uns milhares de participantes no total, talvez uns 4000 ou 5000.

Em função do seu nível de relação com a CIC, há três tipos de projectos: os autónomos, os PAIC (Projectos Autónomos de Iniciativa Colectivizada) e os projectos públicos. Acho importante clarificar o que queremos dizer com PAIC. Estes são projectos autónomos baseados na iniciativa colectiva. O que significa que enquanto a sua função é, na prática,  autónoma e baseada na soberania da assembleia, existe um reciprocidade continua com a CIC, dado que os esforços tomados pelo todo são a chave para tornar as PAIC possiveis, alocando vários tipos de recursos que as tornam reais. As PAICs normalmente respondem também aos objectivos estratégicos da própria CIC.

Calafou é um dos PAIC da CIC, e um dos mais emblemáticos.

 

 Michel Bauwens: A CIC tem algum plano internacional? Qual é a ligação entre cosntruir uma alternativa, o activismo, e a construção de movimentos sociais?

Desde o inicio a CIC promoveu activamente a criação de cooperativas integrais pelo mundo inteiro, sendo isto facilitado com toda a informação que temos acumulado, e dando as boas vindas aos visitantes provenientes de variados lugares.

No inicio de 2013 a chamada para uma revolução integral tornou-se pública. O grupo promotor é, em parte, composto por membros da CIC.

Nos últimos meses temos também estado a trabalhar no Radis.ms, um colectivo e ao mesmo tempo um meio de comunicação digital. Foi iniciado por pessoas ligadas à CIC de maneira a criar uma janela sobre a revolução integral para o mundo.

O compromisso com a expansão planetária das nossas ideias e práticas aumentará na medida das nossas possibilidades. Agora, em 2014, iniciamos um grupo de trabalho que tem este objectivo como uma das suas prioridades.

Este grupo de trabalho chamado “Extensão da revolução integral e entrelaçamento sem fronteiras” fará a gestão das relações com outros movimentos sociais ao nosso alcance.

Até agora tivemos apenas um envolvimento esporádico fora das nossas práticas usuais, como foi com o movimento 15-M. Mas esperamos que à medida que reúnamos mais forças possamos estabelecer ligações mais estáveis com outros movimentos sociais de base.

 

SEGUNDA PARTE: A CIC NO PRESENTE – ECONOMIA

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John Restakis: Que sucesso tem tido o mercado social? Qual é a sua relação com o sistema LETS (Local Exchange Trading System)? Como são valorizadas as trocas no mercado social?  Existe algum mecanismo não-monetário para atribuir e medir os valores? Como funcionam? Encontraram algum ponto fraco?

A questão das trocas locais e das moedas alternativas foi sempre central ao movimento na construção de alternativas económicas, mesmo antes da CIC ter sido criada. Existem aproximadamente 20 moedas comunitárias em circulação, vinculadas às ecoxarxas, que são as homólogas bio-regionais da CIC.

O nosso sistema de moeda social que normalmente chamamos “eco”, usa o software CES (community exchange system). Tem as caracteristica básicas dum sistema LETS, adicionando a possibilidade de aumentar ou diminuir a criação de moeda, através de contas públicas que dependem das decisões das assembleias.

Temos alguns acordos em relacção ao valor máximo horário de trabalho realizado para o bem comum, aproximadamente 5 unidades monetárias por hora. Mas em geral, nos mercados internos, os preços são atribuidos  livremente e é quem participa que sugere ou exemplifica as boas práticas colectivas.

Os mecanismos não-monetários ensaiamo-los nas esferas da comunidade e da afinidade. As nossas inovações mais importantes têm a ver com a forma como obtemos do mercado as necessidade básicas. Na área da educação e da saúde em particular, estamos a praticar sistemas mutualistas. Isto significa que para cobrir as despesas do projecto, cada participante contribui de acordo com os seus meios económicos. Isto pode tomar a forma de donativos espontâneos, ou em vez disso, ser baseado numa tabela que considera os ingressos e o número de dependentes.

Por outro lado, no que toca o acesso à aliementação, temos uma estructura formada pela CAC (Central de Abastecimento da Catalunha) e pelas “despensas” que são espaços locais de abastecimento. Cada uma destas interage com agricultores e productores de alimentos na sua área local. Juntas garantem uma distribuição equitativa em todo o território.

Estas acções diversificadas são apoiadas por uma segunda moeda social que denominamos por “eco-basics”. Esta difere do “eco” porque a moeda que sobra no fim do mês não pode ser acumulada, por outras palavras, não pode ser somada à moeda que ingressa nos meses seguintes. Esta moeda permite o acesso a alimentos, habitação e outras despesas provenientes de necessidades básicas, de acordo com a situação de cada participante.

Outro aspecto que quero mencionar é que queremos por em marcha, este ano, várias estratégias que visam potênciar o mercado interno entre os membros da CIC. Esperamos que culmine num sistema económico mais autónomo e robusto. Até agora não tivemos capacidade para começar a aprofundar alguns aspectos chave.

 

John Restakis: Na citação “…necessitamos de nos empoderar e passar do assistêncialismo ao cooperativismo; superar o Estado de bem-estar desejado por um sistema de redes de apoio mútuo. O Estado quer-nos dóceis e dependentes; nós apostamos na acção de cooperar desde a autonomia, decidindo colectivamente quais são as nossas necessidades materiais e não materiais…” e noutras referências, a CIC parece considerar o Estado como um mal irremediável ou como um inimigo necessário do bem comum. A assistência social recai assim nos mecanismo comunitários de apoio mútuo e nas redes de confiança. E se uma comunidade pode criar estes sistemas e outra não? Que mecanismo usam para a difusão do bem-estar social como bem público, dentro de um modelo descentralizado e comunitário? É possivel prescindir do Estado?

calafouEntendemos que o sistema politico actual, ao qual chamam democracia, é dominado por pequenas oligarquias politicas e económicas e está caduco. Tratar de reformá-lo não serve para chegar a uma sociedade baseada  no bem-estar comum.

Ao mesmo tempo observamos que o modelo Estado-Nação, com controlo exclusivo de um território por um sistema politico exclusivista, baseado numa nacionalidade obrigatória, tornou-se obsoleto, e está a ser superado e subsituido por ferramentas tecnológicas que nos permitem comunicar e realizar actividades económicas em qualquer parte do mundo.

Novas formas de organização voluntária, baseadas em valores e principios que os próprios participantes subscrevem, devem fazer o caminho.

De qualquer das maneiras, assumimos que o Estado será melhor do que nada, para aqueles que não querem ou não sabem como se auto-organizar a nivel da comunidade e da ajuda mútua. Neste sentido, não fazemos nada para destruir o Estado, simplesmente desobedecemos, em formas que são integrais com as nossas práticas.

Entendemos que o melhor que podemos fazer é criar um exemplo das nossas estratégias de auto-organização, para que mais pessoas, seja com este modelo organizacional ou com outros ainda a ser criados, possam chegar a sentir que o Estado não é necessário nas suas vidas.

 

John Restakis: Como interpreta a CIC o seu papel político? Foca-se inteiramente na construção e realização de uma economia alternativa ou inclui também um plano para mudar a política pública? Acreditam que os papeis politicos tradicionais têm algum valor ou recusam-nos por completo?

A CIC tem um papel político fundamental na construção de uma sociedade alternativa e em fazer deste tipo de prática uma corrente politíca a extender a nivel planetário. Entendemos a revolução inegral como uma mudança transversal a todos os níveis da vida, como é o político, o social, o económico, o cultural e pessoal, entre outros.

Se decidimos participar em alguma acção direccionada a pressionar o Estado, será estratégicamente escolhida, principalmente para proteger os projectos de construção e as pessoas envolvidas neles. Ou então, como foi no caso do movimento 15-M, consciêncializar e gerar uma visão constructiva nas pessoas e grupos implicados nos processos de movilização.

Neste sentido não aceitamos que pela palavra “público” se entenda como sinónimo de Estado. Reapropriamo-nos dessa palavra para a usar em relação a tudo o que tem a ver com o bem comum e com a satisfação das necessidades básicas das pessoas.

Em relação aos meios de comunicação, tentamos sobretudo fomentar os meios próprios e afins, assim como as redes sociais. Mas tácticamente também não renunciamos à difusão em meios de comunicação de massas, sempre que seja útil e quando vejamos que a mensagem pode chegar a mais pessoas.

 

John Restakis:  Como evitam o oportunismo? Têm tido a nível territorial ou na economia comunitária?

Partimos do principio que estamos a aprender a lidar com seres humanos em todas as suas dimensões, ouvindo-nos e tentando compreender-nos uns aos outros, nos nossos diversos comportamentos. Isto significa que entendemos que as pessoas que aparentam um comportamento oportunista, também são seres humanos a respeitar e também podem necessitar de apoio.

assembly1Com isto em mente pensamos que o oportunismo talvez tenha estado mais presente no principio, quando nos conheciamos menos e a desconfiança tinha mais capacidade de extender-se. Mas à medida que foi passando o tempo este tema foi ficando confinado ao espaço que lhe corresponde, que é o dos conflictos entre as pessoas, tanto a nível de espaços de vida como de espaços de trabalho.

À medida que a CIC gera mais recursos para redistribuir, podemos ir dedicando uma parte deles a apoiar as pessoas nas suas necessidades e relações humanas. Para isso temos actualmente em marcha três níveis de apoio: um destinado a pessoas que tenham problemas em qualquer dimensão da vida, outro de mediação dentro de espaços de trabalho, e um terceiro para mediação e suporte às comunidades.

 

Michel Bauwens: Vocês vêem uma convergência possivel entre o modelo da CIC e a orientação emergente do P2P/pró-partilha de outros movimentos? Como se relacciona a CIC com o conceito da produção partilhada ponto-a-ponto?

Vemos com mais do que simpatia os movimentos P2P. Estes valores estão incorporados no nosso modelo organizativo, às vezes com outros nomes e entrelaçados com outras práticas organizativas.

O conceito de produção P2P, baseado no principio da partilha, tem sido demonstrado em iniciativas de successo como é o Linux, a Wikipédia e muitas outras. Sentimo-nos parte dele e inspirou muitas das nossas abordagens.

É claro que este é o método para a produção de informação e conhecimento que melhor combina funcionalidade e participação, sem hierarquias, e muitas vezes sem centro. O que é mais dificil assumir é até que ponto será possivel uma descentralização absoluta. Não me refiro apenas à troca de dados e à criação de conteúdos, mas à organização de toda a sociedade e ao modelo de gestão.

Alguns dos debates com os meus companheiros, desde há mais de 10 anos, giram em torno de como trazer os métodos organizativos que deram origem ao Linux para outros âmbitos da organização social. Este foi um dos elementos que no final ajudou também a criar a CIC.

Por exemplo, o artigo de referência sobre gestão P2P cita Mayo fuster, uma das nossas amigas e parceiras com quem tinhamos estes debates na altura.

É preciso discernir e poder diferênciar quando a escala de colaboração P2P é global, e por isso não tem relação com as formas de organização da vida quotidiana, de quando a escala de colaboração é local, e por isso a forma de manusear a vida em todas as suas vertentes é uma parte central do debate.

Creio que a experiência da CIC pode dar muito a esta cultura de colaboração ponto-a-ponto, numa escala local.

A esse nível, qualquer perspectiva de comércio e produção ponto-a-ponto, deve ter em conta que entre todas as opções disponíveis existe a opção de associação com outros seres humanos, na construção da comunidade. De outro modo, o P2P levaria a um individualismo totalitário, no sentido em que criaria formas de organização social que gratificariam apenas aqueles que priorizam a sua opinião baseada em decisões individuais, e que têm sucesso nisso. Não seria o caso das pessoas que precisam do colectivo para encontrar a sua função e se sentirem realizadas.

Por conseguinte, uma perspectiva que defenda a liberdade entre iguais tem de prever que como parte dessa liberdade individual está a possibilidade de criar associações voluntárias, para qualquer fim em que se possa colaborar, e a liberdade de se organizar em comunidade à margem do Estado.

Penso que um movimento social que tem o bem-comum como um dos seus objectivos primários, tem a responsabilidade de gerar formas de autogestão capazes de incorporar cada pessoa da comunidade, incluindo os mais incapazes e os mais fracos (crianças, idosos, doentes).

Assim, a orientação mais pró-activa do P2P tem de complementar os espaços comuns, onde os recursos podem ser redistribuidos, para que possam alcançar todas as pessoas.

Talvez até agora boa parte do movimento P2P considerou isto a nível teórico, mas não foi capaz de aprofundar devido à falta de exemplos práticos a funcionar a todos os níveis, para não necessitar do Estado.

Por isso, o que estamos a tentar criar com o modelo da cooperativa integral pode ser uma interessante plataforma para debates relaccionados com a gestão P2P baseada no bem comum.

 

TERCEIRA PARTE: PROJECÇÕES FUTURAS

 

Neal Gorenflo: Até que ponto documentam o desenho e o desenvolvimento da CIC? Onde podemos saber mais?

Temos muito material que documenta a nossa experiência.

Fizemos vários cursos de preparação dentro da nossa cooperativa e outros para ajudar outras cooperativas integrais. Isto foi muito útil para criar documentação abundante e materiais que são consistentemente actualizados no fim de cada evento.

A maior desvantagem pode ser o facto de muitos desses materiais estarem apenas disponiveis em Catalão e Espanhol, apesar de já estarmos a trabalhar nas traduções para outras linguas. A nossa página web, por exemplo, está desde há uns meses disponivel em Inglês e Italiano.

Temos também alguns documentários que serão legendados em diferente linguas.

Em qualquer dos casos, a ferramenta com informação mais actualiza sobre a CIC é a página Web. A versão espanhola tem a maioria das actualizações, seguindo-se a inglesa que referência parte dessas actualizações.

 

QUARTA PARTE: CRYPTO-MOEDAS, CAPITALISMO E OS PRÓXIMOS 20 ANOS.

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Michel Bauwens: Qual é a vossa opinião sobre o Bitcoin?

A tecnologia que está por detrás do blockchain e o conceito da moeda P2P descentralizada, são grandes avanços a caminho da descentralização do poder, e vemos que têm potêncial para tornar obsoleto o sistema bancário e financeiro actual.

Por outro lado, a implementação concreta do Bitcoin e da maioria das cripto-moedas, gera diferenças sociais importantes, em função da capacidade aquisitiva e do controlo dos meios de produção. Por isso, sendo inovadora a nível de liberdade, não o é a nível social, mantendo o status quo, e talvez incluindo entre os mais ricos aqueles que são mais hábeis tecnológicamente.

Mesmo assim, as cripto-moedas como o Bitcoin têm lugar no nosso modelo de transição, porque são úteis para nos libertarmos dos bancos e do controlo do Estado.

dark-wallet-300x185Entendemos também que nos podem servir para nos tornar mais rápidamente menos dependentes do Euro, podendo acelarar o nosso processo de transição até à soberania económica. Por isso, o Bitcoin, o Litecoin e o Freicoin, são moedas aceites na CIC para diversos pagamentos de serviços comuns. Com o tempo poderemos conhecer melhor as possibilidades que nos dá a tecnologia para criarmos a nossa própria crypto-moeda, reunindo as características que consideremos essênciais numa moeda comunitária.

Por agora, e voltando ao presente ou a um futuro próximo, algumas pessoas da CIC participam em projectos de desenvolvimento do Bitcoin, como é o caso do Dark Wallet.  Como dizia antes, prevemos criar uma rede, entre outras ferramentas, para que os nosso membros possam aceitar estas moedas e convertê-las em euros, se o desejarem, sem passar pelos bancos.

 

Michel Bauwens: Como interpretas categorias como “capitalismo”, “mercado” ou “Estado” e o que gostarias que lhes acontecesse?

Entendo o capitalismo como um sistema de dominio por uma minoria que tem o poder económico, e por isso, controla o acesso aos recursos e aos meios de produção.

O Estado é um sistema de dominio e controlo da população que depois das diversas fases imperialistas, gerou nos tempos recentes a democracia, como aparência da cidadania e da soberania dos cidadãos, para manter a coexistência. Mas como disse antes, como é sabido e analisado, isto não é verdade. No presente, o Estado está ao serviço do capitalismo que é um sistema de dominio ainda maior. Continuam a existir castas privilegiadas que através da acumulação de recursos têm um poder maior que qualquer votante. Isto foi crescendo através da globalização que torna muito mais complicado para qualquer país sair da corrente dominante.

O mercado é uma forma de comércio baseada na liberdade e na igualdade de oportunidades que ao longo da história tem sido manipulado em função dos sistemas de dominio que o utilizam.

Na actualidade, o sistema capitalista gera situações que fazem com que o mercado contribua para gerar mais desigualdades e grandes vantagens competitivas dos maiores em relação aos mais pequenos.  Isto impede que muitos possam sustentar-se e continuar comercializando de forma livre.

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O mercado, no contexto do Estado e do capitalismo, converteu-se numa desculpa para promover e extender as desigualdades.

Por outro lado, no caso da cooperativa integral, estamos a gerar um processo de construção de outra sociedade de base comunal. Através de um processo assembleário e aberto, estabelecemos critérios políticos segundo os quais determinadas actividades económicas podem ser parte ou não da cooperativa.

Baseados neste processo, podemos dizer que a cooperativa integral promove uma economia “com” mercado”, mas não uma economia “de” mercado. No nosso movimento a actividade económica está subordinada ao processo politico, ou por outras palavras, a assembleia está por cima do mercado.

Isto não quer dizer que exista uma intervenção habitual da assembleia em relação às actividades comerciais dos sócios. Até agora a intervenção política no mercado tem estado centrada nos critérios de aceitação de novos projectos productivos, e no incentivo aos projectos mais alinhados com a revolução integral, e não tanto no desenvolvimento das actividades diárias.

Assim, o que este principio implica, é que quando seja oportuno ou necessário podemos intervir.

 

Michel Bauwens: Onde estaremos daqui a 20 anos?

Não sei onde estaremos, mas acredito que seremos mais livres e mais diversos, podendo escolher entre uma grande variedade de opções de vida.

Estou convencido de que vamos viver uma transformação na exclusividade actual de governação, sustentada pelo Estado e pelo capitalismo, e uma desassociação do conceito de Estado como gestor exlcusivo do território.

A soberania individual reclamará o seu verdadeiro significado, de uma total liberdade positiva que levará à multiplicação das diversas soberanias e alargada autonomia, através de processos colectivos legítimos.

Essa siginficativa frase dos zapatistas “por um mundo onde cabem muito mundos” começará a materializar-se nas próximas décadas.

 

 

 

 

 


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Júlio Silvestre

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