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As Batatas e a Cebola

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cavalo_turim_20O Cavalo de Turim não é só o último filme do realizador húngaro Bela Tarr (que disse que não faria mais nenhum depois daquele). O Cavalo de Turim é o último filme de todos os filmes. Isto admitindo que a história pode ter outra lógica que não apenas a cronológica. É o último filme porque é um filme sobre o fim – que conta, comendo-se e acabando nele, como vê o fim. O fim do cinema enquanto dispositivo de afastamento e sacralização daquilo que nos é próprio e íntimo; enquanto modo de pensamento do que é humano, com uma linguagem específica e uma gramática própria. O fim dessa possibilidade absurda de sequestrar pessoas numa sala escura para lhes falar sobre si mesmas, contando-lhe histórias feitas de luz e de sombras. O fim de uma técnica secreta de captura e fixação numa superfície de prata da luz que é emitida por todas as coisas. Afinal, a superação da técnica – de todas as técnicas e de todos os segredos – pela tecnologia. E, se calhar também por isso, o fim de um mundo onde viveu uma classe de pessoas que se apercebe que o seu tempo acabou ali, ao ver aquele filme. Claro que um mundo nunca acaba, porque se encadeia noutros mundos, noutras formas de viver e de pensar, sem que a fronteira temporal do que acabou e do que começa seja nítida. Mas se se pode parar e assinalar uma marca, escrever uma vírgula, então o filme O Cavalo de Turim é isso.

Só uma confiança anormal no que nos tem para dizer o tal Bela Tarr, uma impossibilidade física ou um pudor desmesurado nos permitem sobreviver aos primeiros vinte minutos sem abandonar a sala ou adormecer. Um preto e branco duríssimo, como é próprio de todos os seus filmes, mostra-nos um cavalo que puxa uma carroça e o seu dono, de regresso a casa, atravessando uma ventania furiosa que manda tudo pelos ares. O vento não abranda e o dono e o seu cavalo, vêem-se impedidos de sair de casa para voltar à feira. É isto o que se passa. Nessa casa vive também uma mulher mais nova, a qual não nos é dado a perceber se é a filha ou a mulher do dono do cavalo. Vemos apenas que ela o ajuda a vestir e a despir e se ocupa de todas as restantes tarefas da casa. Uma coreografia constante de lentos movimentos de câmara no interior e ao redor da casa, fazem com que o tempo passe e a rotina austera do homem, da mulher e do cavalo seja progressivamente abalada por uma série de disfunções e de estranhezas. É assim que o filme nos instala numa descrição minimalista de um quotidiano simples, feito de objectos essenciais e de gestos repetidos. A escassez de informação e de novidade na evolução da narrativa torna-se de tal forma exasperante que somos levados a atentar nos detalhes: na  superfície de madeira da mesa, no reboco inacabado da parede atrás da cama, na fechadura de pau do curral, na forma como a luz da tempestade entra na casa ampla por uma janela em cima do fogão a lenha, nos raros utensílios de cozinha, na água onde fervem as batatas. E são as batatas, comidas com a casca e solteiras, temperadas apenas com sal, que nos fazem acordar. A forma como o homem e a mulher comem com as mãos as batatas quentes, em tudo diferentes na sua frugalidade e na sua dureza, a fome como mínimo denominador comum a todos os seres vivos, a ausência animal de adornos, a mim agarrou-me.

A partir desse momento de conquista, vão-se procurando sucessivas camadas de ínfima leitura, que sabemos que como numa cebola, hão de guardar um núcleo qualquer. Percebemos depressa que chegámos lá quando alguém, surpreendentemente, bate à porta. Um homem que vindo do nada, atravessou a tempestade para vir comprar aguardente, senta-se à mesa e conta o que viu lá fora.

“…está tudo em ruinas. Está tudo escavacado.
…eles conseguiram arruinar e destruir tudo. (…) isto não é uma espécie de cataclismo a reboque da alegadamente inocente ajuda humana. Pelo contrário… Trata-se do julgamento do homem, do ajuizar das suas próprias acções, nas quais Deus, obviamente, participa, ou, se me atrevo a dize-lo, nas quais toma parte activa. E aquilo em que Ele toma parte… é a criação mais pavorosa que alguém pode imaginar. Porque o mundo foi degradado, entendes? (…) tudo aquilo que eles adquiriram foi degradado. E uma vez que eles adquiriram tudo de forma manhosa e desleal, degradaram tudo. Porque tudo aquilo em que eles tocam, e eles tocam em tudo, foi por eles diminuído. E assim foi até à vitória final. Até ao triunfante fim…  Adquirir, degradar. Degradar, adquirir… Ou se quiseres posso pôr as coisas doutra maneira, tocar, degradar, e desse modo adquirir, ou tocar, adquirir e desse modo degradar. E assim tem sido há séculos. Repetidamente. Unicamente isto. Ora dissimuladamente, ora à bruta, ora pacificamente, ora de forma violenta, mas assim tem sido repetidamente.
(…) Porque para que esta vitória fosse perfeita… era também essencial que o outro lado… Ou seja, tudo aquilo que é excelente, e de algum modo magnífico e nobre, não se envolvesse em qualquer forma de luta. Não devia haver nenhum tipo de resistência, somente o mero desaparecimento de um lado.

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