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Quebrar o cerco

Quebrar o cerco


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As páginas centrais deste primeiro número do jornal Mapa são dedicadas à violência quotidiana que o capitalismo e, concretamente, o Estado português impõe nas nossas vidas. Poucos dias antes do fecho da edição, mais um miúdo morreu às mãos da polícia.

Numa tarde de Sábado, dia 16 de Março, Rúben, um jovem Setubalense de 18 morreu na sequência de um despiste ocorrido durante uma perseguição policial que envolveu disparo de armas de fogo pelos agentes da PSP . Desde logo, nos principais meios de comunicação, os relatos divergem, mas todos são unânimes ao apontar que o jovem desrespeitou um sinal de trânsito, que não usava capacete e que não parou quando a polícia o mandou.

 

A versão das ruas e de alguns dos seus moradores é bem diferente e o que se segue é um relato dos acontecimentos:

Eles eram quatro, vinham nas motas e não se percebeu se vinham a ser perseguidos “oficialmente”, uma vez que o carro com os agentes (ao todo 4) não vinha com as sirenes ligadas. Entraram numa rua a perseguir apenas o Rúben, em grande velocidade, e com fortes possibilidades de atropelar alguém. Este virou para um sítio onde os carros não conseguem circular, subindo um passeio com a mota; os agentes saíram logo do carro e dispararam para não o deixarem fugir. Dispararam directamente ao rapaz, que se despistou e bateu contra uma caixa de electricidade embatendo fatalmente com a cabeça. O capacete ficou ali ao pé da árvore, os vários cartuchos das balas foram rapidamente recolhidos pelos polícias tentando esconder os disparos. De seguida, muitos moradores cercaram a polícia, revoltados com o que acabara de acontecer, ameaçando os agentes, sobretudo o agente Parreira, aquele que é apontado como ter disparado directamente ao Rúben e que é conhecido na zona pela sua extrema violência. O próprio declarou, no momento, “Se eu soubesse que isto ia acontecer, não tinha feito isto”. A situação tornou-se mais tensa e os agentes ali presentes foram corridos com pedras e insultos, mas em momento algum chamaram o corpo de intervenção ou ousaram voltar-se contra a população. Houve respostas à morte do Rúben, no bairro onde ele vivia, a Bela Vista. Aquilo que as notícias falaram foi de desacatos entre jovens e polícias, com caixotes do lixo incendiados e pedras arremessadas contra os vários agentes ali deslocados. Aquilo que as notícias não falaram é que a polícia se deslocou em força para o bairro, provocando situações de violência que, convenientemente, justificam as acções policiais. A comunicação social tem difundido informações que estigmatizam a Bela Vista, fazendo passar a ideia de que aquele é um bairro onde a polícia é obrigada a intervir devido ao ambiente perigoso. Fica assim legitimada a violência sobre as pessoas, no momento em que o bairro está de luto pela morte de um rapaz cuja vida foi interrompida.

 

Independentemente dos factos ocorridos naquela tarde e do resultado da autópsia, disparar uma arma durante a perseguição de uma mota resultará, inevitavelmente, no seu despiste. Os agentes da polícia estão, certamente, conscientes deste facto.

Infelizmente, quem necessita de andar fortemente armado com uma postura intimidatória para demonstrar o seu poder não tem, naturalmente, o respeito. Perante isso não existe outra forma de se fazer respeitar que não pela violência e os disparos.

 

E agora?
Nunca nada acontece aos agentes que matam nas ruas ou espancam nas esquadras. No dia seguinte podem continuar a exercer as suas funções normalmente. A presença da polícia nos bairros gera, na maior parte dos casos, violência. E a forma como actua, sem olhar a meios, é consequência da impunidade de que goza. É isto que Maria das Dores Meira, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, não compreende ou não pretende compreender quando exige, ao Ministro da Administração Interna, mais policiamento, seja ele musculado ou de proximidade: estas situações acontecem precisamente porque a polícia anda demasiado próxima.O que aconteceu no passado dia 16 de Março não foi um caso isolado. Isto tem acontecido com frequência nos últimos anos, resultando em mortes e feridos às mãos da polícia (ver caixa), pois a morte do Rúben não se explica sozinha nem se circunscreve ao bairro da Bela Vista.O facto de ter sido junto a esse bairro que isto aconteceu, apenas é relevante para se perceber que nos bairros sociais a violência da actuação policial é, na maioria das vezes, muito maior e implacável que no «resto» da sociedade.Serve também para alertar para o perigo de silêncio e esquecimento, já que para fora dos bairros pouco passa além do que as televisões e a polícia deixam passar. Este silêncio e este isolamento são razões de força na explicação da actuação policial. Ao poder e à polícia interessa-lhes a de barreiras entre os guetos e a sociedade dita «normal». Esse é o seu maior receio, que a comunicação se estabeleça de um lado para o outro, fazendo pontes, mas também que se identifique publicamente que a polícia serve para defender o dinheiro dos bancos e para proteger os políticos da revolta nas ruas.No final de contas, sem uma polícia fortemente armada, a austeridade não seria imposta; sem uma polícia pronta a espancar, o silêncio não seria a regra e, mais importante, sem uma polícia pronta a disparar muitos ainda estariam vivos.

Cronologia recente e incompleta de mortes em operações policiais

16-03-2013
Rúben Marques (18 anos)
Manteigadas, Setúbal.
Perdeu a vida em despiste de mota após perseguição e disparos efectuados por agen-
tes da PSP.

04-08-2012
Flávio Rentim (18 anos)
Campolide, Lisboa.
Atingido mortalmente no pescoço por agente da PSP durante perseguição pedonal na linha ferroviária.

09-07-2012
José Ferreira, “Crespo” (21 anos)
Fânzeres, Gondomar.
Atingido mortalmente por disparo de miltar
da GNR após perseguição policial.

15-03-2010
Nuno Manaças “MC Snake” (30 anos)
Travessa de S. Domingos, Benfica, Lisboa.
Atingido mortalmente nas costas por disp-
aros de agente da PSP após perseguição
policial.

13-01-2010
Álvaro Sérgio (27 anos)
A43 (IC29), Gondomar.
Atingido mortalmente nas costas por disparos de militar da GNR após perseguição
policial.

30-05-2009
Antonino Vieira, “Toninho Tchibone”
(23 Anos)
Portimão, Algarve.
Atingido na nuca por disparo de militar da GNR após perseguição policial.

13-02-2009
Tiago Correia, “Seedorf” (20 Anos)
Pontes, Setúbal.
Atingido no rosto, por disparo de agente da PSP, após perseguição policial. Faleceu no hospital.

04-01-2009
Elson Sanchez “Kuko” (14 anos)
Bairro de Santa Filomena, Amadora.
Atingido por agente da PSP na cabeça, a menos de meio metro de distância, após
perseguição policial.

 

 

 


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